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Autor Tópico: O CONTO QUE EU CONTO...  (Lida 423 vezes)
Nilza Azzi
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« em: 23/Mai/09 22:02 »

Para contos com mais de uma página...

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Nilza Azzi
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« Resposta #1 em: 23/Mai/09 22:05 »

AS FANTÁSTICAS RODAS DE SILICONE


A vida estava difícil e Joel não sabia mais o que fazer. Precisava achar um meio de ganhar mais dinheiro, de aumentar a sua renda. Mas como? Ele ia sentado lá no último banco do ônibus, quando houve um barulho, um solavanco, uma guinada, uma freada que mal conseguia segurar o veículo. Um pneu havia estourado.

Na pequena oficina, nos fundos de sua casa, ele estudava o texto que imprimira para ter por perto, enquanto organizava os pensamentos. Assim estava na Wikipédia: silicones são compostos quimicamente inertes, inodoros, insípidos e incolores, resistentes à decomposição pelo calor (...). Podem ser sintetizados em grande variedade de formas com inúmeras aplicações práticas (...) Derivado do cristal de rocha quartzo, é considerado produto inorgânico; devido a isto, tem como uma de suas principais características, a vida útil mínima de 10 anos. Os silicones são altamente resistentes ao ultra-violeta e intemperismos (...) altas ou baixas temperaturas ambientes (em geral de -45 a +145°C). (...) Podem variar de consistência líquida a de gel, borracha (...)

Quando sua filha, Caticha, entrou na oficina, Joel estava absorvido em profunda concentração. Pensava nos elementos principais que dariam suporte ao que pretendia inventar, a solução para o futuro da família, Cleusa e o casal de filhos, Caticha e Serginho. Ele via no silicone a solução para o seu bolso e para o desconforto das pessoas, toda vez que furava um pneu. Nas ruas, nas estradas, nos lugares desertos, nos lugares sem socorro, nos aviões; em todos os tipos de veículos. Como ninguém pensou nisso antes? Nada de cheiro de borracha queimada, quando nas descidas, os caminhões pesados precisam frear muito; menor poluição também; nenhuma família parada no acostamento, correndo o risco de ser atropelada, enquanto o pneu era trocado; poderia ser usado nos trópicos e nos pólos... Uma duração de dez anos! Quanta economia! Se os pneus sem câmara já representavam um grande avanço, que dizer das rodas de silicone, compactas, que ele estava projetando. Representariam segurança para dirigir na chuva, sem aquaplanagem... Sim porque o produto final que ele imaginava seria capaz de aderir ao solo, sem interferência da camada hídrica. E para as corridas de fórmula 1? Sem aquela ansiedade de parada nos boxes para a troca de pneus, pondo em risco uma vitória. Fato é que alguns perderiam seus empregos, mas quanto a isso ele não poderia fazer nada. A vida estava dura para todos...

Joel sonhava com o dinheiro entrando... Mesmo contra os interesses das multinacionais, iria registrar sua patente. O futuro estava garantido. Todos usariam as suas fantásticas rodas de silicone.

Caticha ficou sentada, quietinha, brincando com alguns pedaços de madeira que havia encontrado. De vez em quando olhava para o pai absorto entre papéis e ferramentas; fios e metais; moldes de madeira ainda inacabados e alguns latões dos quais ele retirava um líquido transparente.  Ninguém sabe quanto tempo se passou enquanto cada mente estava absorta no seu próprio mundo de interesses.

De repente, Caticha viu um ratinho passar correndo. Ela não era medrosa, mas não conseguiu evitar.

-Papai! Gritou. Um rato!

Naquele instante, com todo cuidado, Joel estava lidando com alguns fios, ajustava uma ligação para uma das máquinas que iria utilizar. Com o grito da filha descuidou-se e levou um choque, uma chicotada tão forte que o jogou longe.

Sua recuperação foi lenta, mas ele escapou com vida.

Uma semana depois, entrou na oficina para atender a um pedido de Cleusa:

-Joel, você não vai voltar ao seu trabalho? Eu não mexi em nada depois do acidente; deixei pra você...

Olhou para toda aquela bagunça de materiais, juntou tudo, colocou numa caixa e levou até o jardim. Não sabia por que gastava tanto dinheiro em coisas inúteis.

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Menino do Rio
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« Resposta #2 em: 25/Out/09 00:37 »

Testando, testando, testando... não é áudio... estou querendo ver como fica o verbo testar no gerúndio... testanto, testando, testando...

                                 Contente  Contente  Contente
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Marcelo Bancalero
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« Resposta #3 em: 02/Nov/09 11:50 »

O dia de visitas

Dona Laura já estava apreensiva, afinal, aquele era o dia tão esperado das visitas, e ela e seus vizinhos, esperavam ansiosos. Na outra rua a espera também causava rebuliço. O Sr. Antonio, que era um dos moradores mais antigos, relembrava os anos que passara desde que havia chegado. Ele fazia questão de relatar para os mais recentes moradores todas as suas experiências em outras visitas, orgulhoso ao falar sobre os parentes e amigos que vinham visitá-lo.
Porém, em outra rua, entre outros vizinhos, estava o Sr. Joaquim, triste e sem muitas palavras. Ele era um antigo morador como o Sr. Antonio, mas ao contrário do amigo, nunca havia recebido nem uma visita sequer. Embora ano após ano se preparasse para o dia de visitas, ninguém aparecia. Era como se ele não estivesse lá, como se nunca tivesse tido parentes ou amigos.
Era um lugar de muita calma, onde moravam pessoas ricas e pobres juntas, sem se importar com suas diferenças.
Já eram oito horas quando as visitas começaram a chegar. Aos poucos as ruas foram ficando lotadas de pessoas, cada um visitando seu parente ou amigo.
De repente, o momento saudoso foi interrompido, e o silêncio imperou por um momento. A protagonista do acontecimento era Júlia de oito aninhos apenas, que acabava de chegar e ia morar atrás da rua da Dona Laura, ao lado da casa do Sr Joaquim. As crianças do local logo vieram dar boas-vindas à chegada de mais uma amiguinha.
Foi exatamente nessa hora que aconteceu algo que emocionou a todos os moradores. Acontece que a Júlia era bisneta do Sr. Joaquim, (aquele mesmo que nunca havia recebido nenhuma visita), Então seu neto (que era o pai de Júlia), veio até onde estava o Sr. Joaquim, conversou com ele, pediu desculpas por nunca ter aparecido para uma visita e lhe fez um pedido. Para que ele cuidasse de sua filhinha. O velhinho ficou contentíssimo com a visita e lisonjeado com o pedido que prometeu cumprir.
Seu neto foi embora, ao sair deixou algumas flores e limpou a plaquinha que estava pendurada na porta onde estava escrito;
“Aqui jazz Joaquim da Silva”.
1908 à 1978
Saudades de sua família“.
Foi nessa hora que os portões do cemitério começaram a ser fechados. Estava acabado o dia de visitas e tudo voltou à sua calma costumeira.

Marcelo Bancalero
Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2007
Código do texto: T717108
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