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Eu e o computador

Romeu Prisco
 
Um relacionamento que dura mais de treze anos. Os dois ou três primeiros anos foram tumultuados, cheios de desconfiança de ambas as partes, com ameaças recíprocas. O velho 486 dizendo-me,  constantemente, para não fazer "isto" e "aquilo", sob pena de perda imediata de arquivos e programas, enquanto eu respondia, prometendo-lhe uma senhora martelada na fuça.
 
Com o passar do tempo, apesar de inúmeros "paus", panes, formatações e reformatações, nunca ocorreu a perda de nenhum arquivo ou programa e nem eu lhe apliquei a prometida martelada. Há cerca de quatro anos, o 486 chegou ao seu limite. Foi acometido por algo parecido com o mal de Alzheimer. Aposentado, presta-se, desde então, apenas para alguns joguinhos. No seu lugar veio um de última geração, um Pentium IV, 1.7, que, de início, também se apresentou com algumas idiossincrasias, até a substituição do Windows 98 pelo 2000 e deste pelo XP Profissional.
 
Agora (tóc-tóc-tóc na madeira), morremos de amores um pelo outro. Passamos os dias juntos. Encontramo-nos de manhãzinha, à tarde e à noite. Com a adesão da internet, acabamos formando um triângulo eqüilátero, destarte, perfeito. Harmônico e entrosado. Participamos de grupos, listas e "sites" (apesar da minha xenofobia, acho melhor que "sítios"). Fizemos muitos amigos e alguns inimigos. Às vezes, causamos ciúmes e inveja, somos clonados e, se reclamamos, tornamo-nos intolerantes.
 
Quando isso acontece, a culpa, via de regra, é de outro trio, igualmente bem  composto e equipado, porém, mal intencionado. Com a evolução tecnológica, chegará o dia em que o computador, sem dúvida, terá muito mais autonomia. Assim, se não for, desde cedo, devidamente tratado e educado, como se trata e se educa uma criança, poderá converter-se num marginal, ou, mais precisamente, num corrupto. Quiçá num drogado.
 
O meu computador não tem nome, RG e nem CPF. É do sexo masculino, de cor cinza, boa constituição física e moral, tem vacina contra vírus, endereço fixo e está disponível para as operadoras dos seus colegas.

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Romeu Prisco
Publicado no Recanto das Letras em 17/03/2007
Código do texto: T415755

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Sobre o autor
Romeu Prisco
São Paulo/SP - Brasil
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