AS PALAVRAS COMUNS E OS SEUS INSUSPEITOS SIGNIFICADOS
No uso cotidiano, as palavras vêm e vão e nós não temos por hábito prestar muita atenção aos seus múltiplos significados. A velocidade do nosso dia, a necessidade, et cetera, tudo isso nos priva de aproveitar o que as palavras têm de melhor.
Uma palavra como cu, por exemplo, a sílaba cu, numa abordagem mais superficial, significa apenas isso: cu, ânus. Mas debrucemo-nos (ôpa!) sobre o cu: em francês, por exemplo, dizem que cu faz menção ao pescoço. Isso quer dizer o quê? Que em francês o cu está no pescoço? Não conheço nenhum francês, gostaria aliás de conhecer mesmo as francesas, que a lenda diz serem tão calientes quanto as nossas brasileiras - mas daí a dizer que o cu francês fica no pescoço é um absurdo. Suponho que o cu francês fique no mesmo lugar que o cu brasileiro, assim como o português e o australiano, que, embora do outro lado do mundo, deva guardar alguma semelhança anatômica com o nosso querido roscofe.
Roscofe, aliás, é outra palavra que chama atenção. Isso merece aqui um pouco de história: registram os anais (ui!) que, no século XIV, o nobre russo Pièter Pavlov Hoscofiev enlouqueceu de causas naturais e por certo hereditárias. Daí que o nobre se tornou, por conta da doença, um devasso exibicionista, que passava as noites nas tabernas ao lado do namorado, um escritor menor de nome Dostoiévski ou algo assim, exibindo a todos o seu glorioso e no mais das vezes sujo e fedido osório.
Pièter Pavlov Hoscofiev, por conta da preguiça natural que os russos têm de falar, acabou se transformando, primeiro, em Hosco. Algum tempo mais tarde, passaram a chamá-lo de Hoscoff, por acharem mais elegante a pronúncia. O tal Dostoiévski, depravado, nessa mesma época escreveu um conto em homenagem ao namorado: Roscoff, O Cu que Apavora San Petersburgo. Desde então, na Rússia, Roscoff virou sinônimo de cu. (Tempos depois inventaram a vodka Smirnoff, que também é um cu, mas em outro sentido que não cabe agora ser analisado.)
A maneira pela qual o cu de Roscoff chegou ao Brasil é um dos muitos mistérios da humanidade. Tropicalizado, canibalizado e caetaneado de norte a sul, o Roscoff russo ganhou cores e pronúncia brasileira: virou Roscofe. Ainda hoje é utilizado, mas por uma parcela pequena da população.
Chama a atenção também a palavra osório, citada logo acima, que no seu uso normal é nome próprio, Osório. Não se pode, por exemplo, dizer que todo Osório é um cu. O contrário, contudo, geralmente é afirmativo: não conheço ninguém que use a palavra osório para designar outra coisa que não seja o cu.
E do osório (não do Osório), naturalmente, chegamos ao peido. O peido, aliás, é a expressão mais natural do osório, é algo que só mesmo o cu pode produzir de maneira eficaz. Muitas foram as maneiras criadas pelo homem para imitar o peido, mas somente o osório é capaz de fazê-lo da maneira como se deve. O peido, assim como o osório, ou cu, tem muitos outros sinônimos. Bufa, por exemplo, é uma palavra que alcança muito bem o seu objetivo: vem de bufo, bufão, palhaço. Quando alguém solta uma bufa, é difícil para aqueles que estão em volta não soltarem ao menos um sorriso. A bufa cumpre então aqui o seu caráter circense: é destinada a fazer rir. A alguns irrita, naturalmente, principalmente quando fede pra caralho, mas no mais das vezes diverte. Cumpre, portanto, a sua função primeira.
Pum eu acho que não pega bem. A maioria das pessoas, aliás, considera que pum não pega bem em ocasião nenhuma, somente aquelas em que estão sozinhas, et cetera. Mas eu digo que não pega bem porque, antes de mais nada, é apenas uma onomatopéia a meu ver de mau gosto (vocês aí poderão dizer que é de mau cheiro, tudo bem...). E também um tanto infantil. Já imaginaram a cena, um homem de 40 anos, dois metros, dizendo que soltou um pum? Homem de verdade não solta pum, peida. Quem solta pum é criança. Ou a namorada da gente no começo do namoro: "Amor, soltei um pum". Tempos depois, já casados, ela costuma peidar e dizer: "Seu filodaputa, pára de peidar na frente das crianças". Pois é, coisas da vida.
Ainda sobre o peido, aliás, que está intimamente ligado ao cu, tenho aqui uma história pitoresca: em inglês, peido é fart. De certa maneira, em algumas empresas brasileiras, quando alguém falta ao trabalho, ou "farta", significa que não veio, ou foi peidar. Fulano de tal não veio ao trabalho, ficou em casa peidando - isso é coisa muito comum de se ouvir por aí. Mas não é bem disso que eu quero falar. A etimologia inglesa liga, de maneira curiosa, o peido ao ataque do coração. Sim, é isso mesmo. Segundo o First British Etimologic Dictionary, editado por William Shakespeare em 1654, a palavra "infart" nada mais é do que o peido do coração. Faz sentido: "In", dentro; "fart", peido. Numa tradução grosseira: peido dentro. O dentro aqui, neste caso, é do coração, que não tem por onde liberar os gases produzidos pelo fart, que mantém tudo in, sob pressão. No Brasil se fala infarto, mas se alguém sugerir que isso é um peido do coração...
Como vocês puderam ler, uma vez debruçados sobre a sílaba cu, tudo isso pudemos extrair. E muito mais ainda se pode extrair do cu, embora não seja agora o momento. A história da humanidade passa, de certa forma, por aí. Entrando ou saindo, não importa. Mas passa.
Claudio Parreira
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T991242