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Introdução:
"7 segundos no céu; 7 segundos na terra"


19:03
Diar Hoea, um afastado município localizado no interior de Testine, um pequeno estado que se encontra a oeste de Crapelândia, um desconhecido país do hemisfério sul, ainda não divulgado no mapa-múndi.

A uma latitude de 36ºS da linha equatorial, estava-se construindo um prédio. Um edifício que, dali alguns anos, seria demolido por documentação irregular. Britadeiras, ferragem e muitos caminhões de concreto rodeavam o local.

"Bié!" - a campainha anunciava que era hora dos trabalhadores voltarem para casa. Sem pensar duas vezes, eles foram largando suas ferramentas, arrumando suas coisas e dando o fora daquele lugar, mesmo que não tivessem – ou não soubessem – para onde ir.

De um gigante trator amarelo e barulhento, saía Áscaris, uma formosa magrela alta – usava uma peruca azul, para esconder a calvice – e atual motorista daquela máquina. A mulher ganhava a vida pilotando tratores.

A uma longitude de 49ºO do meridiano de Greenwich, havia uma tesouraria. Um lugar não muito freqüentado, onde eram fabricados e vendidos todos os tipos imagináveis e inimagináveis de tesouras.

"Trã!" - um relógio em formato de tesoura comunicava que estava no momento de todos os funcionários daquele estabelecimento irem embora. Aos poucos, eles iam se organizando em fila indiana e saindo um após o outro.

Detrás de uma mesa da tesouraria da tesouraria – o lugar responsável por controlar as finanças e guardar todo o dinheiro que se concentrava naquele pavimento –, saía Taênio, um atraente magrelo alto – que não usava peruca – e atual tesoureiro da loja.

Batendo os pés, protegidos por um par de botas de couro pretas com aço inoxidável nas pontas, caminhava Áscaris, em sentido norte, rumo à sua casa, na Alameda dos Et Céteras. Todo o rebolado fazia com que sua peruca se locomovesse vagarosamente.

Equilibrando-se no tamanco de madeira, o qual tinha estampado na sola o logotipo da AFIDIDA – Associação Fabricante Ilegal De Indefesas Docílimas Armas –, Taênio seguia em direção leste, com o objetivo de chegar ao seu barraco na Favela dos Coisa Chique.

Conforme a peruca ia saindo do lugar, o coro cabeludo de Áscaris ia suando, o que resultava numa coceira infernal; ao passo que passeava, os cupins consumiam o calçado de Taênio, o que fez com que ele ficasse com um salto maior que o outro.

Distraindo-se, com a preocupação de ajeitar a falsa cabeleira, Áscaris não viu quem estava vindo à sua frente... nem à sua esquerda; mancando com o pé direito, Taênio acabou se desorientando e sendo obrigado a trombrar com o que estava no caminho.

Um grande esbarrão ombro-a-ombro aconteceu e os dois caíram sentados na calçada. Na verdade, ambos eram muito magros e foram ao chão, devido ao forte vento que passou sem motivo por ali.

Tal artimanha fez com que eles ficassem um frente ao outro. Os narizes se alinhavam num paralelo imaginário, quando Taênio, limpando a poeira de sua calça, levantou-se e, novamente sentando-se no chão, para ficar à altura de Áscaris, que permanecia imóvel, perguntou:

-Linda moça, quer casar comigo?

O casamento aconteceu na Igreja 23. De um lado da paróquia, estavam os fabricantes de tesouras e os favelados; do outro, se encontravam os construtores e os à-toa. Todos com seus lencinhos de papel machê na mão.

Era um dia realmente especial. Para comprovar isso, Áscaris usou uma peruca verde.

Após o matrimônio, o casal decidiu abandonar suas profissões e abrir o próprio negócio. Usaram suas habilidades como abridor de buracos e contador de notas de um real para inaugurar o primeiro cemitério da cidade: o The End.

Todos os dias recebiam visitas. Normalmente, eram de pessoas mortas ou de gente que só sabia chorar e lamentar. No entanto, o importante foi que, com o aluguel das covas, Áscaris conseguiu comprar uma peruca loira.

Aos dezoito de outubro de quatorze anos atrás, eles receberam a visita da cegonha. Áscaris comprovou isso quando, ao abrir a porta naquele domingo de manhã, sentiu algo melado cair sobre sua testa.

Contudo, nem titica de passarinho faria a mais nova mamãe do pedaço tirar o gigante sorriso do rosto – era definitivamente impossível combater os efeitos colaterais do botox.

Tirando o fofo bebê de dentro do cesto de palha, ela o levantou para o alto e, antes de começar a cantar um trecho de um ópera italiana, disse em soprano:

-Ele se chamará Malaio.

O pobre garoto cresceu em meio a toda aquela loucura da cidade pequena. Brincou dentro de covas, desenterrou vários ossos e enterrou ainda mais. Em resumo, teve uma infância que nenhuma outra criança já teve.

Era rotina dele levantar de manhã e limpar toda a parafina da vela derretida do cruzeiro, para que novas fossem acendidas ao decorrer do dia.

Quando completou sete anos, viu que isso estava ficando muito entediante e pediu, de presente de aniversário a seus pais, um bichinho de estimação. Vendo que a vontade do filho de ter um amiguinho animal, não pensaram duas vezes antes de comprarem-lhe um filhote.

-Essa é sua nova bezerra. O nome dela é Mu!

A vaquinha balançou o rabo e fez Malaio sorrir – agora ela poderia utilizar seu casco para ajudá-lo com a remoção da parafina.

Viveram felizes por cinco anos inteiros, quando uma leve desgraça aconteceu. Na festinha noturna de comemoração de seus doze anos, Malaio corria com sua vaca pelo cemitério, quando tropeçou numa placa de “perpétuo”, que estava largada sobre o chão e caiu com a face voltada para uma poca de água.

O sino da igreja dava doze badaladas, comunicando a chegada da meia-noite, quando o infeliz menino parou de respirar.

Ao lado do corpo, estava Mu, sobre quatro patas. Tentou empurrar seu dono com o chifre, a fim de animá-lo, mas de nada adiantava. Ele estava definitivamente sem vida. Não tendo mais idéia de o que fazer, a bovina agachou-se, deu uma rabada na cuca de Malaio e voltou para a capela – onde dormia todas as noites.

Exatamente doze horas após sua morte – nem um minuto a mais nem um a menos – Malaio despertava. Como já era meio-dia – hora do almoço –, ele limpou seu rosto e, erguendo a placa do chão para colocá-la sobre o túmulo mais próximo, andou em disparada até sua casa, que ficava dentro do próprio cemitério.

Seu primeiro dia com doze anos foi incrível. Um dia considerado inesquecível. Desde depois do almoço, não parara um minuto, sempre tinha algo para fazer. Para finalizar, à noite, ele resolveu assistir a um filme de terror.

Os ponteiros do relógio apontava ser exatamente 23 horas e 59 minutos quando o assassino foi chegando perto e aumentando o suspense. Às 23 horas, 59 minutos e 35 segundos, a faca estava prestes a entrar no coração da vitima. Quando finalmente, à zero hora, assim que as tripas foram dilaceradas, Malaio morreu de susto. E morreu literalmente – não tinha pulso.

Seus pais, que acompahavam o filme junto a ele, por causa da pipoca, não conseguiam acreditar que, após enterrar tantos desconhecidos teriam que fazer o mesmo com o próprio filho.

O corpo do garoto foi velado e, exatamente ao meio-dia, quando iam fechar o caixão, Malaio levantou-se e, como se nada tivesse acontecido, pediu:

-Alguém poderia me arranjar um copo d'água?
Parecia confuso, mas três mortes depois, Áscaris, Taênio e Malaio desvendaram o mistério: após sua primeira morte, quando Mu o tocou com o rabo, lhe deu o poder de, dali doze horas, ressuscitar, para, depois de mais doze horas, morrer novamente. E assim, sucessivamente.

Era como a Cinderela – tinha que estar em casa antes da meia-noite, pois sua carrugem viraria abóbora e seus cavalos se transformariam em três asquerosos e nojentos ratos de esgoto. Embora fosse muito estranho, o jovem garoto havia se acostumado com a idéia de viver apenas doze horas por dia. Se bem que, tinha dias que essa felicidade não estava presente.

Malaio morreu no exato momento em que estourariam a champanha para comemorar a virada de um novo ano.

Malaio morreu alguns segundos antes de sua vizinha, numa crise de insanidade, passar sem roupa pela janela de seu quarto.

Malaio morreu alguns minutos antes de acabar o capítulo final da novela das onze. O mesmo aconteceu no dia seguinte, na reprise.

No entanto, essas mortes também trouxeram algumas vantagens...

Ele morreu duas horas após uma cirurgia para a retirada das amídalas; o hospital pagou uma bolada a seus pais, que alegaram erro médico.

Malaio morreu cinco minutos depois de provar o panetone que sua vizinha louca preparou para o Natal; seus pais receberam uma gorda indenização.

Malaio morreu segundos depois de Taênio assinar um contrato numa dessas seguradoras 24 horas; seus pais receberam um excelente valor do seguro de vida.

Esse dom, de certo modo, estava sendo perfeito, até ele completar quinze anos. Foi nessa idade que ele descobriu sua primeira paixão. E essa coisa de viver-morrer-viver não daria nada certo. Digo isso, pois comprovei na pele, afinal, eu sou Malaio.


21:18
A trocentas milhas e meia dali, havia um obscuro orfanato. A tal instituição abrigava um número exato de dezenove crianças entre sete e quinze anos, sendo elas dezessete meninos e apenas duas meninas.

As garotas – Zulmira, de 14 anos, e Nancy, de 12 – eram como duas irmãs. Ambas viviam juntas, afinal, essa era a única forma de se protegerem das brincadeiras de mau-gosto, feitas pelos garotos.

Após acordar ao lado de uma ratazana de esgoto, ter sido obrigada a comer uma casca de banana retirada da lixeira da cozinha, e ter metade de seu cabelo queimado por um palito de fósforo, Zulmira decidiu que aquilo não era vida. Precisava fugir, ainda que em segredo.

Sem contar seus planos nem mesmo para sua fiel companheira de quarto, Zulmira pensou em cada detalhe de sua maquiavélica fuga. Preparou a lima, para serrar as grades da janela do banheiro, separou um banquinho, no qual subiria para alcançar a vidraça, e arrumou sua trouxa de roupas.

Em plenas três da tarde, enquanto a supervisora estava ocupada repreendendo os meninos pela explosão de um vaso sanitário, que ocorreu no banheiro masculino, Zulmira pegou suas coisinhas e, de fininho, saiu pela porta principal, que não estava trancada.

Assim que pôde sentir o sol em seu rosto, ela sentiu-se livre. E, ao mesmo tempo que a alegria  invadia seu coração, lhe incomodava uma espécie de arrependimento, um sentimento de culpa, – não pelo fato de abandonar aquela que fora sua melhor amiga, mas por que havia esquecido de passar o protetor solar.

Sem idéia de aonde ir, ela saiu sem rumo pela deserta rua, aguardando uma luz divina, que lhe orientaria. E finalmente ela passou pela loja de lâmpadas, na qual eu me encontrava – na verdade, só estava ali por causa do café grátis.

Ela entrou e não disse uma única palavra. Apenas olhou em meus olhos e deixou que eles se comunicassem entre si. Os delas diziam "por favor, me ajude!" e os meus expressavam "será que eu deixei capim suficiente para a Mu?".

De fato, Zulmira não teria ajuda se não fosse o ganchinho da lâmpada flourescente que eu surrupiara enroscar na barra de sua saia. Sem conseguir se soltar, ela foi obrigada a vir comigo até em casa. O longo caminho foi o ideal para que nos conhecêssemos e nos apaixonássemos.


22:39
Embora ciente de que eu só vivesse doze horas por dia, Zulmira deu uma chance para o namoro, afinal, minha mãe lhe emprestara meia-peruca, para sua metade sem cabelo.

Todos os dias, ela estava ao meu lado ao meio-dia, quando eu acordava; também segurava minha mão toda meia-noite, quando eu morria.

Certo dia, ela havia planejado tudo para um encontro perfeito. Levou, sob a sombra de uma árvore, uma toalha de mesa, uma cesta de piquenique, a Mu, e meu corpo, ainda sem vida. Assim que os relógios anunciavam meio-dia, fui recepcionado com um beijo.

Enquanto isso, numa fazenda próxima dali, um ferreiro consertava sua velha bicicleta. Ao sentir sede, deixou seu bem do lado de fora e entrou em sua choupana para tomar um copo de água. Seu bode, que mascava uma latinha de cerveja, vendo aquela maravilha de bike toda de aço, não pensou duas vezes antes de tomá-la emprestada.

Pedalando, desceu a ladeira. Como o homem, dono do bode e da bicicleta, ainda não havia colocado o freio no trem, o feio animal não teve como brecar; veio com tudo pra cima da gente.

Passaram-se absolutamente sete segundos até que a bicicleta passasse por cima de Zulmira. Tanto o bode como a bicicleta saíram ilesos. Não se podia dizer o mesmo da garota, que agora estava morta.

Sem chances de ressuscitá-la sozinho, não tive escolha: puxei o rabo de Mu, fazendo-o encostar na testa de Zulmira. Ouvi um mugido zangado, mas naquele momento meu pensamento estava focado na que poderia ser minha alma gêmea.

E tudo ficou assim: Todos os dias, à meia-noite em ponto, eu morro, para exatamente ao meio-dia eu ressuscitar; e Zulmira, nas exatas 12 horas e 7 segundos de todo dia, morre, para, à meia-noite e sete segundos do dia seguinte, ressuscitar.

Assim sendo, somente nos encontramos do meio-dia ao meio-dia e sete segundos na terra e da meia-noite à meia-noite e sete segundos no céu. Isso, no entanto, não é problema para a gente, afinal, o que um casal de namorado faz em vinte e quatro horas juntos, nós podemos fazer em quatorze segundos.

Até agora, os únicos que sabem sobre essas nossas mortes são meus pais e  Mu. Creio que seria bom manter isso em segredo, pois se mais pessoas ficarem sabendo, elas podem

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JP Hergesel
Publicado no Recanto das Letras em 09/05/2008
Código do texto: T982247

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Sobre o autor
JP Hergesel
Alumínio/SP - Brasil, 16 anos, Escritor Amador
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