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"Intercâmbio" - 02. Supermarket

Anteriormente em “Intercâmbio”...
               Gabriel se aventurou nos Estados Unidos e está tentando se adaptar ao país; ele se hospedou numa casa de família; Julianne lhe arranjou um emprego de seis meses na editora onde trabalha; Janet ficou sendo sua secretária e Alex seu colega de trabalho; Carie não foi com sua cara; Erick, entretanto, foi bastante amigável.


--Capítulo 2--
Supermarket

Enquanto Julianne empurrava o carrinho, na seção de massas, Gabriel procurava algo de interessante na prateleira de doces e biscoitos. Olha a embalagem de um, consulta a validade de outro, mas acaba não ficando com nenhum, pois a etiqueta com o preço indicava uma quantia absurda de centavos de dólar a pagar.

Uma mulher não muito velha – provavelmente pelos seus quarenta anos de idade–, passava pelo corredor, como se desfilando. A brisa que batia em seu rosto, levando os cabelos castanhos, alisados com escova progressiva, para trás, ajudava a espalhar o perfume adocicado e aparentemente caro, cuja fragrância supostamente estivesse grudada na pele há dias.

Esbanjando tamanha simpatia, resolveu perguntar ao jovem moço, sorrindo:

-Com licença, você é turista, não é mesmo?

Jamais pensara que tal curiosidade provocaria uma reação tal como a que provocou em Gabriel.

-Qual é? Está tão óbvio assim? Como é que vocês percebem? É pelo meu sotaque? É pelo meus olhos? É pela forma que eu respiro? Dá um desconto... estou tentando me enturmar.

E, pegando um pacote de chicletes, saiu, com cuidado para não amassar seu tênis Rainha, sua calça verde, sua camiseta amarela e sua bandana anil, onde podia-se ler bordado em verde-limão a palavra “Brasil”.


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-Gabriel, enquanto estou na fila do açougue, você bem que poderia pegar pão, não é mesmo?

-É claro! De forma ou francês?

-Francês... Nossa torradeira quebrou. Na verdade, ela queimou... minha mãe resolveu lavá-la... por dentro... ligada!

E ouvindo mais um caso absurdo feito por Regina, ele saiu, indo em direção à padaria. Por não tão boa sorte, a fila era praticamente o dobro do tamanha da fila do açougue – devia ter umas cinqüenta pessoas, desesperadas para fazer um sanduíche especial, já que não é muito comum a venda de pão francês nos Estados Unidos.

Gabriel demonstrou não estar com nem um pingo de vontade de ficar mais de meia-hora esperando, atrás de um velho gripado e aparentemente surdo. Começou a pensar, então, se havia alguma forma de ele não enfrentar todo aquele tumulto. Raciocinou, andou para lá, para cá, torrou alguns neurônios e finalmente encontrara uma conclusão.

Uma senhora – a primeira da fila – havia pedido cinco pãezinhos – exatamente o número que Gabriel desejava pedir – e, pondo o saquinho no carrinho, lembrou-se que precisava pegar uma latinha de extrato de tomate. Deixando o carrinho parado próximo à bancada de frios, saiu em busca do tão importante produto.

Como quem não quer nada, Gabriel se aproximou do carrinho, disfarçou, olhou para os lados, viu que ninguém estava vendo, enroulou mais um pouco... Fingindo pegar uma bandejinha de queijo muçarela, o rapaz enfiou a mão do carrinho da mulher e pegou o tão sonhado pão.

Nesse momento, a mulher voltava com o extrato de tomate nas mãos e, vendo Gabriel surrupiar seu pão, gritou:

-Socorro... ladrão!

Percebendo-se encurralado, Gabriel começou a correr, por entre os corredores do supermercado, na esperança de que os seguranças não fossem atrás do discreto “homem canarinho”. Entratanto, não tinha como escapar.


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-Estou dizendo Julianne, eu não roubei nada. Ela ainda nem havia pago pelo pão...

Ela olhava para ele com uma expressão que dizia “ao sair daqui, vou te matar!”. Pudera, estavam detidos na gerência do mercado.

-Gabriel, não sei no seu país, mas, aqui, se uma coisa não lhe pertence, você não pode pegá-la sem permissão! Você pode ser deportado por isso, garoto.

Nesse momento, a porta da salinha se abria: entrava o gerente.

-Então, senhor Gabriel, já fui colocado inteiramente em sua situação.

Julianne, com sua mania de interromper, perguntava:

-Ele poderá ser deportado por isso, não?

-Com certeza! A sorte dele foi a mulher não ter registrado queixa. Mas, atenção moço, se você aprontar mais uma, porá os pés em seu lindo país de origem mais cedo. Agora, podem ir.

O casal se levantou e se dirigiu em direção à saída. Julianne saiu sem dizer nada; Gabriel, no entanto, antes de se encontrar totalmente do lado de fora, virou-se para o gerente e disse, sem titubear:

-A propósito, “roubo” é o preço dessas mercadorias!


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Chegando em casa, Gabriel e Julianne se depararam com Regina, numa posição não muito agradável aos olhos humanos. Dizia estar fazendo ioga.

-Ioga é tão relaxante... Você imita uma abelhinha... zum... zum...

Sussurando no ouvido de Julianne, Gabriel comentou:

-Não seria hum... hum...?

-Vespa como ela é tem que ser “zum-zum” mesmo...

Harold, sem vergonha nem respeito, afirmou:

-Isso pra mim é vontade de dar “zumazinha”. Falando nisso, Gabriel, você não tem nenhum Viagra para me emprestar?

-Harold, por favor... – Regina chamava a atenção do marido – Não generalize pela marca. O nome correto é “cloreto de sildenafila”.


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Enquanto isso, na Fairy Publications...

-Alex, por favor, venha à minha sala! – ordenava Carie, pelo ramal interno da empresa.

-Sim, senhora. Em que posso lhe ser útil? – perguntava Alex, que chegara rapidamente.

Olhando para fora, a fim de certificar de que não havia ninguém perto, Carie fechou a porta e as persianas.

-Primeiro quero ter certeza de que essa conversa não vai sair dessa sala.

-Pode confiar em mim. Minha boca é selada... Se bem que o correio não reconhece isso...

-Senhor Alex, estou falando sério. Notei que ficou trabalhando até tarde hoje. Demonstra muita responsabilidade. Sabe, acho que você precisa de uma promoção.

Sentando-se na sua cadeira giratória de rainha do mal, continuou falando:

-Antes do Henry sair de licença, tínhamos planos de promovê-lo a “assistente da vice-diretoria”. Ele seria o primeiro a assumir esse cargo na editora. Contudo, ele se foi e colocaram esse Gabriel no lugar. Agora, é bem capaz que ele seja o novo escolhido ao cargo. Entretanto, se algo lhe acontecer e ele não puder mais aparecer na empresa, outro terá que assumir essa posição.

Alex começou a captar o que a vilã tentava dizer.

-Ora, Alex, hoje você é um simples assistente editorial. Amanhã...

E de braços abertos, girou em sua cadeira, como se exibindo seu escritório. A frase terminou aí. Alex, mostrando ter entendido tudo perfeitamente, disse:

-Sabe a “Life”, a nova revista que será lançada pela editora? Pois bem, nós ainda não temos a matéria da capa e, por coincidência, o Gabriel ficará responsável de editá-la. A propósito, ele só terá até as dez da noite de amanhã, pois, após esse horário, a gráfica irá recolher o material. Será que ele dá conta?

Carie sorriu. Alex, dizendo que precisava ir embora, deixou a sala. A vice-diretora, agora sozinha, dava mais uma volta em sua cadeira e falava para si mesma:

-“Assistente da vice-diretoria”? De onde tirei isso?

E riu, macabramente.


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Sentada em sua cama, Julianne olhava para o espelho, enquanto penteava seu cabelo, para ir-se deitar.

-Gabriel, seja sincero, eu sou bonita?

Sem um pingo de vergonha na cara, o garoto respondeu:

-Não!

Ela, contudo, não se conformou com a resposta que obteve.

-Você não é nem um pouco gentil, sabia?

Ele se explicou:

-Sou  um brasileiro, estrangeiro para vocês. Pela primeira vez, alguém daqui dá bola ao que eu digo.

E arrancando um sorriso da moça, ele deitou-se em sua cama, cobriu-se e virou-se para o lado, caindo num sono profundo.


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Ao chegar à Fairy Publications, Gabriel se deparou com um bilhetinho em seu computador, o qual fora sido deixado por Alex.

“A capa é sua!”

Sem ter idéia do que aquilo significava e, pensando se tratar de mais uma gíria norte-americana não-compreendida por ele, amassou o pedaço de papel e, mirando à lixeira, o jogou. Do utro lado do escritório, Janet comentava com Alex:

-Olha que dó! Eles não têm quadra de basquete no Brasil...


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-Cariieee!!!

Pela primeira vez, o pessoal da editora viu Erick zangado. Ele parecia espumar pelas orelhas, quando gritou o nome da vice-diretora.

-Sim, Erick. Em que posso ajudar?

-Onde está a nossa capa? - perguntou, mostrando-lhe o “Book” com a primeira página e as centrais em branco.

-Bem, eu achei que já estivesse pronta. Eu mesma deixei sobre responsabilidade do Alex.

Tomando fôlego, deu um segundo grito:

-Aleexxx!!!

-Sim, senhor.

-Você poderia ser gentil e me dizer por onde anda a matéria principal da “Life”? Ela tem que ir para a gráfica até as dez da noite...

-Bem, senhor, como minha área é a das revistas voltadas às fofocas e celebridades, eu deixei essa, que fala sobre bem-estar e filosofias de vida, sobre a responsabilidade do Gabriel. Como não o vi pessoalmente, deixei um bilhetinho comunicando-o.

-E quem é esse Gabriel?

-O cara que está substituindo o Henry, enquanto este está de licença.

E lá ia um terceiro grito:

-Gabrieelll!!!


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-Então, quer dizer que ele te ameaçou colocar no olho da rua se você não encontrar uma reportagem para a capa?

-Isso mesmo, Julianne. O pior é que não adiantava eu tentar explicar. Ele não me dava ouvidos.

Um minuto de silêncio. Em seguida, uma euforia de Julianne:

-E o que está fazendo parado aqui, falando comigo. Corra atrás da matéria da capa!

-E de que adianta? Como é que eu vou escrever alguma coisa que chame atenção e seja bem feita, entrar em ocntato com o departamento de fotografia, convocar modelos para as fotos e tudo mais, em menos de dez horas?

Ela queria ajudar-lhe, mas não tinha idéia do que fazer, portanto só lhe disse:

-Boa sorte, meu amigo!


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O dia de Gabriel não estava sendo nada bom. Para “ajudar”, a criatividade não estava sendo boazinha com ele também. Sendo assim, ele não honrou com seu título de brasileiro e resolveu desistir. Todavia, antes de falar com algum de seus superiores sobre sua decisão, começou a arrumar suas coisas.

Enquanto colocava as coisas numa caixa, pensava em como seria sua vida nos Estados Unidos sem emprego. Tudo custava o “olho da cara”. Até o pobre lápis estava sem ponta, pois o coitado não tinha nem como comprar um apontador. E foi olhando para esse lápis, que ele falou para si mesmo:

-Será que é muito chato pedir para a Regina me comprar um apontador novo quando ela for ao supermercado?

E aí ele “desfez a caixa”.


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-...E assim seria nossa matéria princial: primeiramente mostramos a entrevista com o gerente do supermercado, mostrando o lado estressante no trabalho e, em seguida, as dicas da senhora Regina de como relaxar através da ioga. Isso representará bem a primeira edição da “Life”, uma revista que não critica o esforço, mas que aconselha a como suavizá-lo.

Na sala de reuniões, Alex e Carie se entreolhavam, como se rissem por dentro, afinal de contas, jamais Erick aceitaria uma idéia tão tola quanto aquela. O chefão levantou-se, analisou a idéia de Gabriel de perto e, em seguida, deu seu veredito final:

-Isso é completamente diferente de tudo o que a Fairy Publications já fez...

Alex e Carie achavam praticamente impossível segurar o riso.

-...mas a “Life” também é diferente de tudo o que a Fairy Publication já fez. Parabén, Gabriel. Foi encima da  hora, mas você conseguiu.

Alex e Carie ficaram sem-graça.

-E Carie, por favor, ligue para o Bruce e diga-lhe que ele ficará encarregado das fotos e das modelos.

Enquanto todos saíam da sala, Julianne foi falar com Gabriel.

-Você não sabe como minha mãe está se sentindo alegre por saber que será capa de revista...

-Fala sério, já estava mais do que na hora... Ela é uma figura!

-Isso é bem verdade! Mas o que mais me surpreendeu foi você ter conseguido pensar em algo assim... E seu prazo já estava quase no fim...

-Esqueceu? Sou brasileiro: deixo tudo para a última hora!


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Para a gráfica, o trabalho foi dobrado por culpa de Gabriel. A revista vendeu tão rápido que tiveram que reimprimir a primeira edição no meio da semana. E Carie não estava nada feliz com isso...
JP Hergesel
Publicado no Recanto das Letras em 09/05/2008
Código do texto: T982305

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JP Hergesel
Alumínio/SP - Brasil, 16 anos, Escritor Amador
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