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Crazy - A descoberta da vida -Cap.3: Você pode ser o que quiser

Começam as aulas e todos estão ansiosos. A ex de Rodrigo fica sabendo que ele ficou com Julie na festa e decide acabar com a menina nova. Liz deixa bem claro que Rodrigo é seu namorado de longa data e que nada nem ninguém poderá separá-los. Julie fica chateada e pensa em ignorar Rodrigo por achar que ele não é boa pessoa por tentar seduzi-la mesmo tendo namorada. Ela comenta isso com Bela que acha besteira e diz que Liz está mentindo. Bela diz que Julie está apaixonada por Rodrigo.

— Bom dia!! Pronto para mais um semestre? Eu estou pronto pra até dois, três... e sabe do que mais, esse vai ser diferente dos outros.

Rodrigo nunca tinha visto o amigo tão animado em um primeiro dia de aula, e eles estudavam juntos desde da quinta série. Quando terminaram o colegial, os dois seguiram cursos diferentes, mas foram para a mesma universidade. André foi para a publicidade, com sua paixão por montar vídeos, e Rodrigo para a administração, por sua paixão pelo Crazy, onde trabalhava desde os 16 anos, e onde era gerente.

— Toda essa animação é por causa da namorada nova?

— E toda essa desanimação é por causa da namorada velha? – ironizou o amigo.

— Você sabe que eu e a Liz não estamos mais juntos desde quando começaram as férias.

— Não, eu sei que quando começaram as férias você foi viajar de repente, e sumiu as férias inteiras... e acho que é isso que a Liz sabe também.

— Eu disse a ela que iria viajar, e depois a gente já era. Não foi muito legal da minha parte, eu sei... mas a Liz estava me pressionando para passar as férias com ela, pra ir não sei aonde, e nem se lembrava dos deslizes dela. Já não dá mais, e já faz tempo isso... ela sabe, e mesmo assim ficou me ligando as férias inteiras.

— Mas vocês conversaram na festa, não foi?

— Foi, ela me fez passar a maior vergonha na frente da nossa vizinha...

— Que vizinha?

— A vizinha nova, a Julie.

— Ah, então a Julie também está metida nessa história... como foi isso?

— Ah, eu estava meio que me escondendo da Liz, e tirei a Julie pra dançar, na verdade eu roubei ela de um calouro, mas calouro não tem vez, né... eu não sei direito, na hora que vi já estava dançando com ela... e quando vi já estava rolando um clima...

— Hã... clima, é? Não estou entendendo o que você está querendo fazer, mas parece que a Julie não é garota pra esse tipo de coisa. Eu conheci ela, e a Bela fala sempre dela, ela é uma garota legal, então se você está procurando confusão... acho melhor se afastar dela, não tanto por ela, ou o que ela vai achar, mas pela Liz. Você sabe que ela não é de brincadeira, e a Julie é nova aqui...

— Eu sei... não sei o que está acontecendo desse o dia da festa. Mas já conversei com a Liz, e ela me pareceu compreender bem, e também já pedi desculpas pra Julie... espero que com o tempo as coisas vão se ajeitando melhor... mas vamos logo.

Ao saírem os meninos encontram Julie e Bela na escada.

— Oi meninos, bom dia – cumprimentou Bela primeiro. Eles disseram oi.

— Oi Julie – cumprimentou Rodrigo. – Oi , disse ela, meio sem graça – vocês querem uma carona?

— Seria ótimo – agradeceu Bela já dando o braço para o André.

No carro André e Bela foram na frente, e Julie e Rodrigo no banco de trás. No banco da frente, a conversa era animada e cheia de olhares apaixonados, mas no banco de trás havia muito constrangimento.

— E então, animada pra começar o semestre? – ele tentou iniciar uma conversa.

— Não sei, eu sempre fico um pouco nervosa no primeiro dia de aula. Ainda mais assim quando não conheço ninguém.

— Acho que assim é melhor, sei lá... ninguém te conhece... você pode ser o que quiser.

— Quer dizer, ser alguém que não sou? É assim que você é? Uma pessoa diferente em cada lugar onde as pessoas não te conhecem?

Ela sentiu que ele ficou um pouco confuso com o que ela disse, pareceu até um pouco triste e decepcionada, o que a fez sentir um pouco de arrependimento por ter sido um pouco grossa. Mas Rodrigo respondeu:

— De repente você pode descobrir quem realmente é. A faculdade serve pra isso também.

— Olha, desculpa, eu não devia ter falado assim com você.

— Tudo bem, acho que você não tem muitos motivos pra querer ser legal comigo... acho que muita gente não tem -  A ultima frase saiu meio abafada.

— Hã?

— Mas mesmo assim espero que a gente possa ser amigo, tudo bem pra você?

— Claro.

Quando chegaram na universidade cada um tomou um rumo diferente. Ao entrar no seu bloco Julie dá de cara com Liz e suas amigas, que ficam olhando-a torto. Ela só abaixa a cabeça e passa reto. ‘Melhor ir logo pra aula’, pensou ela.

Quando conseguiu encontrar sua sala, o professor já estava entrando.

— Bom dia a todos, eu sou o professor de Oficina de textos I.

‘Hum, vou me dar bem nessa matéria, eu gosto de escrever’.

— Um fator que exijo é presença e responsabilidade com datas, pois vocês terão prazos para trabalhos que, uma vez marcado a data para entrega, não será mudado em qualquer hipótese. Quanto as avaliações, vocês terão duas avaliações individuais esse semestre. Bom, acho que podemos iniciar nossa aula. Espero que como futuros jornalista, vocês estejam conscientes quanto a produção textual, que será revista aqui nessa disciplina de forma sucinta...

(...)

— Por hoje a aula está encerrada, sejam todos bem vindos e até a semana que vem.

— Oi, eu sou Margarida, mas todo mundo me chama de Margie – cumprimentou uma menina de cabelos ruivos, Julie ficou animada por alguém ser legal e receptivo – você é a menina que ficou com o namorado da Liz na festa de recepção dos calouros, não é?

É, ela não tava sendo tão legal assim...

— Não, eu não fiquei com ele.

— Não é o que todo mundo está comentando...

— O que todo mundo está comentando? Ninguém me conhece ainda como podem estar falando de mim?

— Ninguém ainda não te conhece, mas conhece a Liz e o Rodrigo, e do namoro dos dois.

— Você conhece eles? Mas você não é caloura?

— Não, sou veterana, estou pagando oficina de texto I na minha hora vaga, toma cuidado com esse professor, ele não é nada bonzinho como parece.

‘Afinal, ela está sendo legal ou não?’

— Mas, então, se eu fosse você, ficava longe da Liz e do namorado dela, não fica bem pra ficar dando em cima do namorado das outras, sabia? E você ainda é caloura, fica pior ainda.

— Mas eu não estou dando em cima do namorado de ninguém...

— É bom mesmo – essa voz já era conhecida... Liz – oi Margie, conheceu a caloura? Eu sou Liz, a gente já se conheceu na festa lembra? Quando você estava conversando com o meu namorado?

‘Ai, meu Deus, o que eu estou fazendo aqui?’

— Eu estava querendo mesmo falar com você, a gente pode conversar um pouco?

— Tudo bem.

As duas foram sentar em um banco que havia no corredor.


— Eu queria mesmo falar com você, não acho as pessoas ficarem falando de você pelos corredores sem você saber. O fato é que todo mundo ficou sabendo que você ficou com o Rodrigo na festa...

— Eu não fiquei com ele...

— É, eu sei disso... eu conversei com o Rodrigo também e ele me confirmou a história. E sabe, eu confio plenamente nele, porque a gente tem uma história tem bonita, você não conhece, é claro, e por isso quero te contar. Eu e o Rodrigo namoramos há um ano, foi tudo muito rápido, a gente se conheceu e já começamos a namorar, foi amor a primeira vista mesmo. E a gente sempre foi muito feliz, sempre fomos cúmplices em tudo, parceiros em tudo mesmo... só que, como todo relacionamento nós também começamos a ter nossos altos e baixos... de repente a gente começou a brigar e terminar e voltar toda hora. Eu sei que eu errei muito com ele, assim como ele também errou muito comigo, mas o fato é que a gente não consegue viver longe um do outro... espero que você entenda, que ainda não esteja apaixonada por ele, por que não vai dar certo querida... a gente nasceu pra ficar junto. Mas, olha, se você estiver apaixonada por ele eu entendo, ele é lindo né? E simpático e tudo mais, mas ele não vai me deixar pra ficar com você. E é por isso que todo mundo está falando de você, te chamando de caloura abusada, não é por mal, é por que aqui todos conhecem a minha história com o Rodrigo.

— Caloura abusada?... olha, eu nunca fiquei com o seu namorado, e nem estou apaixonada por ele, eu só estava no lugar errado e na hora errada.

— Tudo bem, acontece mesmo... bom, então já estamos conversadas. E, ah, não liga para o que as pessoas estão dizendo, logo eles esquecem, e tudo volta ao normal, do jeito que sempre foi. Tchau.

Julie ficou chocada, como aquilo podia estar acontecendo? Como podiam pensar que estava querendo roubar o namorado de outra pessoa? Justo ela que nunca teve namorado? Não, aquilo não podia estar acontecendo.

— Então, já assustou a menina? – perguntou Margie para Liz.

— Já fiz minha parte, e pelo jeito ela vai fazer a dela direitinho, depois do drama que eu fiz, me passando de vitima, ela nunca mais vai querer olhar para um menino, quanto mais para o Rodrigo.

— É, mas ela está morando no mesmo condomínio que ele, não é?

— É, mas se tudo der certo, o Rodrigo vai passar mais tempo na minha casa que lá, e eles raramente vão se ver. Mas por via das dúvidas, vamos para o plano B.


Julie saiu ainda meio atordoada com que Liz falou para ela, estava começando a achar que todos estavam mesmo olhando para ela. ‘Não pode ser, a universidade é muito grande, deve ser impressão minha’. No meio do corredor ela encontra com o Rodrigo.

— Oi Ju....

Ela passa reto, sem nem olhar pra ele, que fica parado no meio do corredor com cara de tacho.

No momento ela queria ir para o lugar mais longe possível, mas nem isso podia fazer por que a próxima aula iria começar logo. Achou um banco vazio fora do bloco e sentou lá pra se acalmar um pouco.

‘Que pesadelo, o primeiro dia de aula sempre foi um fiasco, mas esse estava sendo um fracasso.’

— Oi. Posso me sentar?

— Ahan.

— Meu nome é Diego, eu estou na mesma sala que você. Você não está se sentindo bem?

— Não, eu estou bem. Meu nome é Julie, prazer. Você é calouro ou paga matéria na minha sala?

— Sou calouro e não sou ao mesmo tempo, na verdade eu estou voltando, eu fiz um semestre e tranquei, e agora voltei, mas como eu havia faltado muito no outro semestre tive que voltar pra este.

— Hum, então você também já falando de mim por ai...

— Falando de você? Por que?

— Não está? Que bom, então esquece...

— Estão falando de você? Relaxa, eles fazem isso todo ano com os calouros, já falaram de mim também.

— É? As pessoas daqui são estranhas, ou eu sou muito estranha para as pessoas daqui sei lá...

— Com o tempo fica pior... brincadeira, aqui também tem pessoas muito legais, você vai ver. Mas agora acho melhor irmos para a aula que já vai começar, História do jornalismo I, é melhor não chegar atrasada na aula dessa professora, porque ela não facilita não.

— Já estou me acostumando com isso.

A aula correu tranqüilamente, e Julie já estava começando a esquecer aquela historia toda, o Diego também estava sendo muito legal e ela achou que eles iriam poder ser grandes amigos.
Quando chegaram na escada do corredor, começaram a cair vários planfetos, que todos correram pra ver achando que era de alguma festa. Mas não era, no planfeto tinha uma foto de Julie marciana com Rodrigo astronauta, tirada na festa do fim de semana, com uma flecha apontada pra ela escrito: Caloura abusada.

Agora era o fim. Se antes só algumas pessoas estavam sabendo da história, agora era todo mundo do bloco, e talvez ate da universidade toda.

Os dois saíram do bloco apressados, Julie fazendo força para não chorar ali na frente de todo mundo.
Próximo ao estacionamento, encontraram Bela e André que também já estavam sabendo do planfeto.

— Ju, você está bem?

— Não...
— A gente te leva pra casa.

Julie reparou que ninguém cumprimentou o Diego. Mas estava tão abalada que não comentou com ninguém do seu novo amigo.

— Como isso foi acontecer? Eu nem sabia que tinha sido com o Rodrigo que você tinha ficado na festa? – disse Bela.

— Eu não fiquei com ninguém naquela festa. Por que tudo isso está acontecendo?

— Eu imagino porque, eu tinha tido pro Rodrigo te deixar de fora dessa historia, a Liz não é fácil não – respondeu André.

— Acha que foi ela?

— Com certeza. Mas você não deve dar atenção pra essa garota, deixa que dela o Rodrigo cuida. Mas porque você estava com aquele mafioso?

— Mafioso? Que mafioso?

— O Diego. Não sabia que ele é filho de um super mafioso?

— Não, nem sabia que todo mundo aqui nessa cidade era louco...

Depois que chegou em casa e tomou um banho quente pra relaxar, Rodrigo bateu na porta querendo conversar.

— Ah, não Rodrigo... chega por hoje...

— Preciso conversar com você, te dar uma explicação pelo menos.

— Explicar o que? Que os veteranos fazem isso todos os anos com os calouros ou que você nunca vai deixar a Liz? Acho que não preciso de nenhuma dessas explicações, já as ouvi o dia todo.

— Sei que seu dia não foi nada fácil..

— É não foi nada mesmo, eu tive uma conversa super séria com sua namorada, conheci professores carrasco, espalharam planfetos horríveis sobre mim na universidade toda, e a pessoa mais legal que eu conheci é filho de um mafioso!!

— Então, agora eu quero saber se você vai deixar isso tudo te abalar e fazer você abaixar a cabeça para os outros como acho que sempre, ou vai ser a pessoa que você quer ser, e encarar a vida de frente? Eu vim aqui, me desculpar com você, porque tudo isso é por minha causa e da histérica da minha ex. Vim também saber se você vai enfrentar tudo isso comigo, porque eu realmente não quero perder uma amiga assim, não quero pensar que você é fraca e mimada. Era isso que eu queria te dizer. Tchau.

— Por que esse menino me faz pensar tanto?
— Porque você está começando a gostar dele? – respondeu a amiga.
Juyu
Publicado no Recanto das Letras em 15/05/2008
Código do texto: T990985
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Comentários
02/06/2008 20h31 - naninha
gostei..

Sobre a autora
Juyu
Cuiabá/MT - Brasil, 23 anos, Escritora Amadora
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