Ruas do coração
Que se detenha o sangue, que os pulmões não filtrem essas partículas, que a terra não gire, nem os peixes se movam, nem a águia com as suas garras deprede, nem o cavalo ao galope espumeie, nem o morcego chie, nem a folha no seu outono caia, nem o bosque arda, que a humidade não trespasse, que a chuva não contriste nem o orvalho calme, nem as estrelas estourem, nem os buracos negros absorvam todo o desvotado para criar com o velho o novo no ainda ignoto, que não se sofra à hora da luz, nem piem entolecidas nos seus voos acrobáticos dos entardeceres à beira dos conventos as andorinhas, nem emigrem as cegonhas ou os patos, que o voo das borboletas seja traçado por uma mão qualquer, nem o animal humano abuse, e sonhe, que não sangre o coração.
Antom Freire Adám
Publicado no Recanto das Letras em 06/07/2008
Código do texto: T1067896
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