RESQUÍCIO DE UMA NOITE DE VERÃO
Reticentes retinas cansadas têm lapsos de visão e entre uma cena e outra, distraem-se com a escuridão como os músculos dos lábios que relaxam entre o intervalo provocado pelo beijo furtado seguido ao tapa instintivo num misto de crime e castigo, imersos na noite febril de um sábado de verão sob um pé de manacá e um fiapo de lua cheia que alinhavaram os sonhos imprescindíveis e os pesadelos postados por mãos de carrasco e selados sob a língua maldita de um destino inescrupulosamente perverso.
Foi o que restou em mim daquela noite; além do ardor na altura do baço, do odor de pólvora captado no ar e a visão piscante entre um vulto e um rosto cujas lágrimas ainda pude sentir gotejando macias sobre minha face, levei incrustado na alma uma dor canalha de um mal entendido que não pode ser desfeito.
Betusko
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901787
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