Texto

 Mão e contramão.
 
Ele era menino, moleque. Criado em cidade pequena, muito pequena. Ali, quando se ouvia o barulho de um carro, todos iam a janela sem se importar com a poeira que se levantava a sua passagem. O carro podia ir em qualquer direção que quisesse. Subir, descer, rodopiar, andar de ré. Qualquer movimento era motivo de encanto. Aí o menino se mudou, com a família, para a cidade média. E ficou completamente encantado e abismado com o movimento dos carros que passavam por ele sempre na mesma direção, subindo a rua. Ele se assentou no primeiro degrau da escada que levava ao sobrado onde agora iria morar. E nada do menino sair dali. A mãe não gritava seu nome bem alto para todos ouvirem, como fazia na pequena cidade. Ali, ela falava baixinho porque também estava assustada: Ronaldo, sobe, está na hora de comer. Venha tomar banho! E nada do menino subir. Então alguém, exasperado, desceu as escadas e foi perguntar-lhe o que estava vendo de tão importante que não atendia aos chamados da mãe. E assim foi perguntado e assim foi respondido: estou sentado aqui faz muito tempo. Já subiu um montão de carros, mas nenhum desceu. Vou ficar aqui até ver um descer. Foi a primeira lição que lhe ensinaram na cidade média. A de que na vida não se anda na contramão porque se andar vai se ferrar. Só que ele nunca aprendeu.
(em memória de meu irmão Silvio Ronaldo Alves de Melo)

Texto 15 de Pequenas Histórias Encantadas
 

Maria Olimpia Alves de Melo
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1907475

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Comentários
07/11/2009 00h22 - Lisyt
Gosto muito dessas suas pequenas história. Penso logo num livro para criança( de todas as idades), como os da Ruth Rocha.Histórias com conteudo e mt bem ilustradas. Tenho lido para meus netos. Abraços
06/11/2009 23h17 - Ângela Rodrigues Gurgel
A vida e suas convenções... São tantas as lições que precisamos aprender, nem que seja para transgredí-las. Gosto dessa sua série. Afetuoso abraço.
06/11/2009 17h08 - Rosso
Mão e contra-mão são convenções. Se ele ficasse ali o tempo suficiente, finalmente ele veria o inovador, algumas vezes também chamado de transgressor, descer a rua contra todas as convenções. Alguem sempre faz isso e cria novas possibilidades. Sempre.

Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras/MG - Brasil
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