Texto

Contra Desabafo

Eu que já cantei discuros de utopia e já acreditei nessa mísera filosofia, hoje canto um discurso mórbido de misantropia. A evolução não é para todos, apenas para os escolhidos. Quem são os escolhidos? Não sei quem são, mas eu sou um deles. E como saberia que eu sou um escolhido? Eu escolhi a mim mesmo, e me posiciono a frente de tudo o que me acorrenta. Estou no caminho da libertação, tentando alcançar a luz que está depois das espessas nuvens negras que acobertam nossas cabeças tão medíocres e humanas.

Não sou pessimista, sou apenas misantropo. Não dar a mínima para a revolução humana não é ser pessimista. Isso é, em primeiro lugar, ter amor próprio.

Eu que já sequei a garganta de tanto falar e dolori os punhos de tanto escrever; eu que já fui um dia o bufão dos inconscientizados, que já fui a chacota do povo conformado, ou até mesmo do inconformado preguiçoso, eu hoje não canto mais nada. Fico mudo, calado e imperiosamente imperceptível!

Eu que no primeiro e no segundo planos de minha vida me preocupei em demasia com o outro, recebi esterco no rosto. Recebi escárnio. Pintaram meu rosto como um verdadeiro Shylock, depois cuspiram nele, pisaram nele. E ainda que me vissem chorando, fizeram disso mais uma razão para me crucificar.

Eu que tentei a todo esforço conseguir algum respeito entre as pessoas, com a difusão das minhas idéias emprestadas (de Marx, Hobbes, Sartre, Candido, e mal sabia eu que eram deles), fui colocado em dúvida. Fui tão questionado e tão encurralado, que a certo ponto, esqueci quem eu era no começo disso tudo. Moldei a minha personalidade, tentei me afunilar, e lutar contra os excessos de açoitamento moral. Tentei a todo custo fazer crer que eu era eu mesmo, a todo momento. Mas para todos os demais, eu nunca fui eu mesmo, então desisti de insistir, e fui o que sabe Deus ou Zeus queria que eu fosse.

Quando dei por mim, eu já não só não era eu, mas eu já não era. E deixei de ser. Ao invés de atravessar a nuvem, eu fiquei preso nela. Não enxergava o que estava acima e nem abaixo. E precisei sair.

E posso dizer que hoje já estou quase fora, e agora enxergo. Meus conflitos pessoais são a coisa mais importante que existem nesse mundo. E o resto do mundo que se acabe em discórdia. Eu não tenho o ânimo, e para ser franco, a vontade de caminhar pelos outros. Nem ao menos tentar mostrar como se caminha. Ninguém quer andar, ou sente a necessidade de andar. Já se vê o excesso de cadeiras que temos em todos os lugares. E se não há cadeiras, há queixas. Para quem não quer se manter de pé e caminhando, existem as cadeiras e os veículos, cada vez mais automotizados.

Eu opto pelo caminho a pé, e desprezo, no meu íntimo, desprezo com todo o meu nojo e o meu asco, com toda a minha força de misantropo, a todas estas pessoas que estão com os ânimos engordurados de tanto ficarem sentadas.

É por essa razão que o meu desabafo é um contra-desabafo ao seu, e eu quero dizer que o mundo que se dane com todos os problemas e complicações. Ele assim o é porque todos querem. Se não quisessem, lenvatariam e se exercitariam um pouco. Mas só um pouco.

Enquando o mundo se acaba, eu fico aqui construindo confortavelmente o meu próprio mundo. E dele só eu farei parte, eu e mais ninguém!

Agora me pergunto: onde estavam todos os revolucionários de hoje em dia quando eu era um revolucionário há seis anos? Estavam preocupados com seus conflitos internos. Eu vi claramente. E enquanto eu gritava, diziam não ter tempo, diziam não poder, ou em muitas casos, não me diziam nada. Simplesmente me deixavam na angústia de não ter as respostas que eu queria. E havia a mudança, ora para o norte, ora para o sul da cidade, ora tentando fugir, ou se esconder. Ora tentando descobrir as novidades da vida (que se olharem bem, malditos cegos, não há novidade alguma!). Tive que conviver com a negação daquilo que eu melhor tinha a oferecer para estas pessoas: todo o meu amor e carinho. Durante a minha revolução, as pessoas fugiram. E já hoje eu recebo os chamados para voltar. Mas por que não quiseram quando eu estava tão disposto? Onde estiveram todo esse tempo? Por que é mais fácil enfrentar a indiferença dos mais distantes, porém é difícil enfrentar o amor dos mais próximos? Por que a fuga?

Eu não creio no poder de nada, creio apenas em mim e somente em mim. Não importa até onde eu poderei chegar, a minha vida é para satisfazer apenas a mim mesmo. Olá mundo infernal, eu lhe parabenizo, pois criou uma pessoa absolutamente egoísta! Acreditem, atingi o cume da estupidez adulta! Não é assim que vivem os meus semelhantes? Nada está certo a não ser aquilo em que acreditam. Pois eu sou assim também. Discordo de vocês tanto quanto todos discoradariam de mim.

Enfrento a maldade com aquilo que é bom, jamais com a mesma moeda. Mas eu luto pelos que me querem. Os que não me querem eu apenas digo que continuem a não me querer, pois nada quero deles também.

Acreditar em algo além do que os meus olhos podem ver, seja a vinda de um messias, ou o final de uma batalha. Não, eu não tenho mais esta força. A crença não passa de uma perspectiva do olhar misturado às nossas idealizações. E eu já chorei demais por causa de muita gente, e cada lágrima que caía, era o mar da idealização que ia secando.

Hoje eu digo que já não creio em nada, absolutamente nada.

Eu não quero revolução, eu quero apenas um pouco de paz.


Texto por Borges Sanatore
Matheus e Borges
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1905932

Copyright © 2009. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Indique para amigos
Denuncie conteúdo abusivo

Comentários
21/11/2009 23h56 - Karina Kakhau
Risos. Não vou dar gargalhadas porque estamos em público. Hã? É justamente por isso que estou sussurrando. Tem muita gente aqui. Risos.

Sobre o autor
Matheus e Borges
São Paulo/SP - Brasil, 24 anos
117 textos (2695 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 26/11/09 08:33)

Como anunciar aqui?