Pratos Limpos
Foi enquanto eu enxugava os pratos que a melodia foi se infiltrando sem pedir licença, foi se enfiando na minha alma, alojando-se na minha mente prendendo-se ao meu coração.
Ansiei saber de onde vinha, quem tocava aqueles acordes tão tristes, tão fortes, tão lindos.
Pensei em sair e descobrir quem seria o anunciador de tanta beleza infeliz, mas pra quê? Fazê-lo parar, e atrapalhar sua extraordinária demonstração de dor e abundante talento?
Não senhor, preferi aproveitar cada momento cada segundo, cada compasso daquela brilhante composição de música e tristeza. Cheguei a pensar se aquilo não vinha de dentro de mim, da minha cabeça, de minhas angústias presas querendo despontar, e por uns instantes isso foi quase certeza.
Depois não liguei mais pra saber quem fazia nem porque fazia não me importei, mas tenho certeza de que se pudesse permanecer ouvindo aquela canção, aceitaria enxugar os pratos pelo resto da vida.
Elizabeth Nascimento
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1911100
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