Texto

No País das Serpes

Tenho uma língua na boca
e outra nos ouvidos

No meio fica
a confusão
o engano
a raiva
o medo
a impotência
a submissão
a incerteza
a saudade
a caneta amortecedora
o ódio
a faca
o desassossego
a luta
o render-se
o nunca se render
a morte
o inimigo
a entranha estéril
a perda dos herdeiros

No meio... ai, no meio !
por vezes o desespero
a procura
a frustração
a embriaguez
a auto-anestesia
a auto-mutilação
a dúvida
a certeza da dúvida
sim, da dúvida semeada em terra própria
por mão alheia
no meio os funerais
nos que se enterram
palavras vivas
estando ainda quente nosso alento
palavras que gritam
que pedem ajuda
a esta minha torpe mão
de guerreiro inútil

Sim, tenho uma língua na boca
e outra nos ouvidos
uma me liberta
a outra me invade
uma para cantar a dor de tanta morte
a outra a assassina.
Concha Rousia
Publicado no Recanto das Letras em 16/05/2008
Código do texto: T992115

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Comentários
05/02/2009 09h42 - Cynthia Lopes
Por aqui para hoje, diante desta imagem forte e vigorosa. belo poema da alma exposta.
21/05/2008 20h14 - Lucibei
Poema intenso e ritmado. Gostei de ler-te. Parabéns!
20/05/2008 07h19 - AGIL
Cara Concha, deixas-me no meio e meio... Lembras o Drummond de Andrase e o seu «No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra»? A ecoar o início da 'Divina Commedia'... No meio... "In medio uirtus"? Não no meio confusão e convocação à morte... ou à vida: Nós temos a palavra, apesar de tudo!

Sobre a autora
Concha Rousia
Portugal, 47 anos
274 textos (8678 leituras)
1 e-livros (99 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/11/09 04:18)

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