CLARA
Onde estavas, meu amor, que tanto tardaste,
E estive a sofrer, sem saber que tu virias,
Num ermo chão onde meu coração cismava,
Desfeito em dor, sem amor-luz, sem ti, sozinho?
Onde estavas, meu amor, que mares não vinham?
Eu te compunha em mim, queria ver-te um dia,
Ao abrigo do sol, ao alcance das mãos,
A sós. Vieste: tudo o que sonhei chegava.
Não... Não se trata de compor canções banais,
Poemas sem ar, óbices ao sol, odes falsas.
Trata-se de nós: nosso amor, composto e uno,
Brisa sem lei, seiva de mim, orgia pássara.
Almas febris num vitral de dez mil espelhos.
Mistério de Deus finalmente revelado.
Vozes reunidas. Ausência de sombra,
De tempo e espaço. Nós, que hoje somos juntos.
Trata-se de saber que existe o mar, que Clara
É a brisa, e breve brilhará no oceano
Um novo par de sóis: um pas-de-deux de amor.
Denso é o mar, doce é o vento, e Clara está em tudo.
Manoel Olavo
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2009
Código do texto: T1681956
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