Testamento
Senhor, quero escrever um poema
Onde eu possa abrigar os sonhos abandonados
e ser a matéria na ausência
Guardarei as canções não cantadas
para que o cego mundo ouça a esperança
da metamorfose adormecida das crianças
Cantarei no poema as entrelinhas
das contradições e desencontros,
tecerei desejos e rumos
com novelo da infância
pintada nos castelos sonhados
A verdade na palavra
é a porta entre aberta da liberdade,
onde escrevo e subscrevo
o sopro de todo sentimento
Que tu Senhor
Transforme em mim
e através de mim
a fruta da precariedade
na segura construção de afetos
Senhor, quero ser a Tua pena
a escrever e redesenhar o teu amor
no avesso das ruas
no beco da insensatez
no vão das ilusões
no alto vôo da desilusão
Serei a terra do poema
a lançar a tua semente
pra que cresça um sonho
Escreverei o sonho fundo
que amanhece no velho mundo
Não serei mais um não,
ou uma rima,
serei brisa
que sopra no instrumento
da Tua canção do destino
A tristeza que a morte tece
Fica encolhida no canto da sala
do desencanto
quando os sonhos
cantam no coração
Senhor, quero escrever um poema
Pra que dormem as crianças
E acordem suas mães
na estação do viver
Basta de poema não escrito
Quero ver a tua beleza escrita
nos olhos dos outros
Tudo foi dito
do teu jeito erudito,
e colho e recolho
e planto na terra fértil
do coração penetrável da ternura
tudo que foi dito e redito
pelos lábios de Cristo
Robson Renê Pereira
Publicado no Recanto das Letras em 06/11/2009
Código do texto: T1908344
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