Quando
Quando eu era criança, Deus era melhor
Alongava a novidade
E nenhuma coisa tinha um fim
Nem o mundo nem nenhuma vida
Deus era mais eterno
E o medo que eu tinha era do escuro
E não do homem
O noticiário era mais tranqüilo
E as tragédias de verdade nunca aconteciam
E não era tão vergonhoso ir até a casa do vizinho ver televisão
Ou emprestar copos de comida
Eu tinha os corações que desejava
Justamente por não desejar coração nenhum
E eu não era tão ridículo
Nem tão feio como me dizem por aí
E nem sempre era o último a ser escolhido
Nas brincadeiras de escolha
As pequenas tristezas aconteciam
E eram porque não se tinha o brinquedo
Não porque não se tinha uma pessoa
Eu não era tão corcunda
E nem me importava se tinha só um par de sapatos
Porque eu não olhava tanto para eles
Como faço hoje quando caminho
Deus amenizava a minha estupidez
Porque colocava graça na bobeira burra
De toda pequena pessoa quando boba
As coisas eram mais iguais
E mesmo o garoto monstro da quinta casa era feliz
Mesmo o amor paraplégico ainda era amor
Mesmo a luz de velas ainda era luz
Mesmo todos eram o coração do mundo
E não só poucos alguns
Quando eu era criança, Deus era melhor
Porque talvez também fosse Ele mais criança.
Adrian Lincoln
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1910147
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