Texto

Cansada, constato

Cansada
De não ser verdade
De não ser mentira
De não ser carinho, nem toque
De não ser sequer raiva, ou ira
De não ser nada, nada, nada,
de amarfanhar o beijo na boca do sonho
adormecido na dança de pássaros mudos,
silenciados;


De pássaros entorpecidos neste frio absurdo
do Maio das horas a passar constante
em vértebras sugadas até à medula,
p’los carniceiros abutres…


escoam-se
         nos vitrais bolorentos do desejo,
os sentidos, os afectos tresmalhados,
na detença, na tibieza do fim dum chão
lamacento. Deste onde, dia após dia,
hora a hora, em que me sento e jazo defunta
no cimo de um planalto
e renasço na fantasia obliquada
em claridade cortada por grilhões.

Grades, arames, linhas, fracas de finas,
pontilhadas no abstracto de um céu azul-cobalto.

Cansada
de ser apenas poemas de refúgios derrotados,
letras avultadas de fados com girassóis costurados
nos olhos de musgentos de mim menina,
escoam-se os sentimentos decrépitos
em formulários meticulosamente preenchidos,
na sentina repartição,
letra a letra, certinha, em maiúsculas,
como se impõe na nota minúscula de um rodapé:

“- Nome, sexo, idade, país, morada, localidade…”
                      enfim…

Cansada, constato:
- Ninguém pergunta por afectos!
              Afinal, não se legislam por diplomas, decretos …
Mel de Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 09/05/2007
Código do texto: T480294

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Comentários
11/05/2007 08h44 -
Extremamente sombrio...poemas de refúgios: sim, derrotados: nunca! Talvez o pior estado seja esse de estática, indiferença meio catatônico...mas evidentemente isso não combina contigo. Um excelente desabafo com o magnífico letrar que estamos acostumados.
10/05/2007 19h57 - Henrique Mendes
Amiga, há momentos que são traiçoeiros, e nos levam a perder o prumo, a estrela do nosso norte, e a olhar o mundo segundo valores que parecem - mas não são os nossos. ( a mais cruel das armadilhas ! ) Acho que, instintivamente, sabemos disso, e defendemo-nos em trincheiras de isolamento, durante as quais rodamos sobre nós próprios, sempre sobre voltas já conhecidas, que repisamos até ao ponto de rotura - não de saciedade. Emergimos, todos nós, cada um de nós, qualquer um de nós, cansados... Mas pensa que, cada uma dessas voltinhas, não é um círculo, é uma espiral. E que não repisaste os teus passos, apenas os sublimaste em crenças, seguindo os teus caminhos - que te trouxeram a hoje. E, nesse percurso, os teus textos - que seria de nós, sem os nossos textos, lembras ?...-deixaram um testemunho de ti, que perdurará sempre, e onde te encontrarás amanhã. Hoje, és somente tu - desaguando em hoje. Benvinda !
09/05/2007 05h55 - Joban
lindo poema, apesar de revelar uma triste existencia de nós homens que se dizem sábios mas ficam presos por anda, parabéns beijos Joban

Sobre a autora
Mel de Carvalho
Portugal, 49 anos
129 textos (3924 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/02/10 06:42)

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