Olho vermelho
Olho vermelho
Primeira versão: 1984 - Autor: Gutemberg Honorato de Moura
A tarde embranquece de susto
Em silêncio estrangulado
O olho vermelho arrasta
Com seu brilho mórbido
Fantasmas de carne e osso
Para o lodaçal sinistro
Da noite sofisticada
Cálculo negativo
Cérebro violento
No olho de expressão injetada
Morrer é fortuna
Ao olho bizarro
Pertencem as noites eternas
Que emprestam momentos
Aos raios de sol
O mundo existe menos que o olho
Pois só no olho ele adquire significação
Sonhos pequenos inventam
Um doce intestino mel
Mas a noite é um poço preto
E um sofrimento pálido
Trêmula lição de carne
Em que os vermes se incomodam
E as moscas se ufanam
O olho vermelho é uma cabeça velha
De primaveras em que os botões
Arrebentavam em frutos
E os frutos eram tumores
Que os indivíduos comiam
É a projeção de miolos
Ressequidos em tripas tornados
Assimilando ferozes teias
Vomitando peçonha
Olho de sangue...
Têmpora fria
Pensamento oco
Embriaguez eco
Nervo torto
Pensamento decaído
Coração fragmentado
Músculo enferrujado
Menino insolente nascido
Do negrume da noite entupida
O ar lhe sobe pelas asas
Como o sangue sobe à cabeça
E as energias vermelhas dão chicotadas
De dor e incompreensão
Cabeleira negra agourando as criaturas
Contraindo e pedindo a morte
Com vergonha de renascer
Gutemberg Honorato de Moura
Publicado no Recanto das Letras em 04/07/2008
Código do texto: T1064167
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