O Veleiro
No horizonte a cidadela, intermitente cela,
onde meu livre-arbítrio se encerra,
onde meu fado sela
no final do último tombo d’água,
a liberdade que me enterra.
Quem me dera ao infinito translúcido volver,
onde o tempo transcendia, sonolento se permitia,
perder-se à luz do cadente farol
que ao som da noite dançava,
e à luz do sol se omitia.
Meu veleiro prosseguia.
Eu veleiro, ressentia
sonhos e futuros de que jamais esqueceria.
Guiado pelas ondas a um velho destino,
embriagado pelas taças de minhas companhias.
Marasmo a prazo
que em águas rasas jazia,
o bucólico veleiro que na soma que fazia,
além de seus tesouros
de si mesmo se perdia.
E em suas córneas sem pudores
o espelho se quebrara,
ao desatino desencontro se lançara.
Perdendo sua religião;
Matando sua grande ambição;
Renascendo do sopro cíclico
que a vida tem em suas mãos.
Assim de volta a seu berço
se fez carruagem, não mais veleiro,
a ser guiado pelos mesmos cavalos,
que do penhasco os seus pais não salvaram.
E na cidadela, cabisbaixo vagando,
vê no horizonte o oceano, intermitente plano,
onde o livre-arbítrio, triste engano,
prenunciado pelo ocaso
tenta seduzi-lo a mais um sonho insano.
E seu desabafo surge em lágrimas, gritando:
-Deixaste-me afogar...
Enquanto meus heróis morriam,
sozinhos,
sangrando...
Marcelo Maia
Publicado no Recanto das Letras em 27/01/2007
Código do texto: T360808
Copyright © 2007. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.