Inabalável
Ouça o som do vento, gritando em teus ouvidos;
O que ele te diz?
Ouça o som do mar bravo, angustiado em seu vai-e-vem;
O que ele te diz?
Ouça o som dos carros velozes, em tua janela semi-aberta;
O que ele te diz?
Ouça a minha voz, suplicando por um segundo de atenção;
O que eu estou dizendo?
Podes me ouvir...?
...Ou tornei-me, agora, inaudível?
Olhe o brilho dos raios de sol, refletido nas gotas de orvalho, pela manha;
O que você realmente vê?
Olhe para a luz da lua cheia, cobrindo todos com tal aura;
O que você realmente vê?
Olhe para uma criança, pulando e vivendo, sem se preocupar;
O que você realmente vê?
Olhe para mim, nos meus olhos, e me diga com toda a sinceridade;
O que você realmente vê em mim?
Podes me ver...?
...Ou tornei-me, agora, invisível?
Toque um pano de seda, moldando-se em tua mão;
O que você sente?
Toque uma vasilha cheia d’água, fria e gelada;
O que você sente?
Toque em uma navalha, deixando escorrer um único pingo de sangue;
O que você sente?
Toque em mim e abrace-me, dizendo que tudo vai ficar bem, minta;
O que você acha que eu sinto?
Podes me tocar...?
...Ou tornei-me, agora, intocável?
Sou santo e sirvo apenas para contemplação?
Devo ser forte para suportar o mundo, mas o que fazer se o mundo não me der suporte?
Inabalável, jogue tudo em cima de mim, pois o peso do mundo eu já aprendi a agüentar.
Eu não vivo tua vida.
Eu não sinto tua dor.
Eu não enfrento teus pesadelos.
Você vive minha vida.
Você sente minha dor.
Você enfrenta meus pesadelos.
Eu vivo tua vida.
Eu sinto tua dor.
Eu enfrento teus pesadelos.
Você não vive minha vida.
Você não sente minha dor.
Você não enfrenta meus pesadelos.
Eu não sou você.
Eu não posso ser você.
Eu sofro por você.
Eu choro por você.
Eu enfrento teus medos.
Eu amparo tuas dores.
Eu te seguro em meus braços.
Eu te abraço bem forte.
Eu te dou forças para continuar.
Eu te dou uma razão para amar.
E você, o que faz por mim?
Leirbag Beouve
Publicado no Recanto das Letras em 05/11/2009
Código do texto: T1905728