Texto

“Eu Sou Eu e as Minhas Circunstâncias”

De manhãzinha, passo pela da minúscula oficina do chaveiro. A porta da oficina mal passa de um metro de largura... rosto sério, lá está ele, o dono da oficina - magro, bigode grosso, camisa para fora da calça jeans bastante surrada. Antes que apareça o primeiro cliente, ele varre o trecho de calçada subtendido pela estreita porta da oficina. E varre meticulosamente, escarafuncha com a vassoura piaçaba as gretas da calçada, e até olha em volta para ver se restou algum cisco.
Varre com o respeito que teria pela sala da sua casa... afinal, é dali, dessa absurda mesmice, que ele tira o pão de cada dia. Não é muito o ganho que entra por aquela porta estreita, mas, é uma vitória conquistada a cada dia... e sem suar o rosto: ele se amolda ao que faz... será? É tão perigoso afirmar, tão perigoso!

Depois, guarda a vassoura num cantinho, e recolhe-se atrás da bancada, a fazer chaves, o dia inteiro... À tarde, vejo-o baixar a porta de ferro da oficina, com todo o cuidado. Dia seguinte, novamente varre a calçada... No circo da vida, ele trilha um círculo do mesmo diâmetro, sempre e sempre... Quem tem como ofício abrir portas, talvez tenha se habituado a não abrir certas portas em si mesmo; dúvidas não ajudam a quem vive da mão para a boca! Ele é a própria reafirmação de que o sujeito é o sujeito inteiro - ele é ele e as suas circunstancias. Eu, ele e as demais pessoas do verbo também - a vida é essa planura aborrecida...

              [Penas do Desterro, 07 de novembro de 2009]

[Obs. publicado também no blog "Mundaréus", ai que o tal do blog é um saco! Não serve para nada... vou apagar aquela merda! Manter um blog é exercitar o grito para o oco de si, e depois, de mão em concha, esperar alguma resposta - convenhamos: quanta arrogância!]
Carlos Rodolfo Stopa
Publicado no Recanto das Letras em 07/11/2009
Código do texto: T1911073

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Comentários
08/11/2009 10h45 - Ana Másala
Sim, tão perigoso afirmar! Quem somos para dizer de um outro...dos céus e infernos do seu cotidiano,para além das aparências...o que importa a esse fiel cumpridor dos seus deveres que parece fechado num existir por demais previsível e que também me angustia.Tão perigoso afirmar, vem nos lembrar o poeta alargando as portas para outras possibilidades que passam ao lado. Bjs,Ana
07/11/2009 22h49 - Eliz
Verdade tem fases q essa "planura" realmente se torna "aborrecida" demais. Belo texto. Boa noite!!!
07/11/2009 22h48 - Roberto Pelegrino
Um tralho poético maravilhoso para ser lido e relido váris vezes, parabéns!

Sobre o autor
Carlos Rodolfo Stopa
São José dos Campos/SP - Brasil
331 textos (22425 leituras)
54 áudios (3839 audições)
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