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TIRÉSIAS

 

Adivinho de Tebas, ele desempenhou papel importante na maior parte das lendas do ciclo tebano. Descendia de um dos guerreiros que nasceram dos dentes do dragão semeados por Cadmo, personagem lendário considerado como um dos disseminadores da civilização oriental na Grécia Central primitiva. Entre as versões que procuram explicar a razão pela qual Tirésias (em pé, na ilustração ao lado, com Ulisses) perdeu a capacidade de enxergar, uma diz que isso foi um castigo por ter ele revelado aos mortais os segredos do Olimpo, outra, que essa punição lhe foi imposta por ter transmitido a Anfitrião as aventuras de Alcmena; uma terceira, a de que sua cegueira resultara da infeliz opinião dada por ele quando de uma discussão entre Zeus (Júpiter) e Hera (Juno) ou ainda por ter visto Atena (Minerva) banhar-se na fonte Hipocrene. Quanto a essa última hipótese, esclarece a lenda que Tirésias, em sua juventude, vira, por acaso, a deusa se banhando. Furiosa, esta o privou da visão, porém, mais tarde, abrandando-se, concedeu-lhe, como compensação, o conhecimento dos acontecimentos futuros.

 

Tirésias residia geralmente na cidade de Tebas, e foi ele quem aconselhou que se oferecesse a Édipo, vencedor da Esfinge, o trono de Tebas e a mão de Jocasta, auxiliando também o herói na descoberta do mistério sobre seu nascimento. Predisse a morte dos sete chefes de uma infortunada expedição contra Tebas (Adastro, rei de Argos; Polícines, filho de Édipo; Tideu, da Caledônia; Partenopeu, da Arcádia; Canapeu e Hipomedon, de Argos; e Anfiareu) e dez anos depois aconselhou os tebanos a entrar em negociações com os epígonos (cada um dos filhos dos seis chefes mortos na expedição anterior, já que Adastro conseguiu fugir com seu exército para Atenas), antes de procurarem a salvação pela fuga.

 

Não se sabe se escapou dos invasores ou se foi levado por eles como cativo, mas a tradição revela que mesmo depois de morto o adivinho conservou o dom dos prognósticos, dos pressentimentos e das previsões, que exerceu no Inferno. Tirésias era adorado com deus pelos tebanos, tanto que perto de Orcômeno foi erigido em sua honra um célebre oráculo.

 

São muitas as histórias que circulam a seu respeito, e algumas afirmam que ele viveu cerca de sete, oito, e até nove vezes, a idade normal de um ser humano, período durante o qual foi sucessivamente homem e mulher. Sobre isso, diz a lenda que certa vez, indo ele orar sobre um monte Citeron (montanha situada na região central da Ática, consagrada antigamente ao deus Dionísio (Baco) e às musas), encontrou um casal de cobras venenosas copulando, e ambas se voltaram contra ele. Tirésias matou a fêmea, e imediatamente se transformou em mulher. Tornou-se uma prostituta famosa.  Anos depois, indo orar sobre o mesmo monte, encontrou outro casal de cobras venenosas copulando. Matou o macho e se transformou novamente, agora, em homem. Por seu conhecimento sobre as particularidades dos dois sexos, ele foi chamado, certa feita, para opinar sobre quem estava com a razão em uma discussão que envolvia Zeus (Júpiter) e Hera (Juno), a respeito de quem teria mais prazer na relação sexual, se o homem ou a mulher. Viu-se, assim, diante da difícil tarefa de decidir a questão, porque sabia que qualquer que fosse sua decisão, o deus que perdesse ficaria irado com ele: se de um lado Hera dizia que o homem tinha mais prazer, Zeus dizia que era a mulher. Tirésias deu o seu veredicto: “se dividirmos o prazer em dez partes, a mulher fica com nove e o homem com uma”.

 

Hera, furiosa por considerar que com aquelas palavras Tirésias teria sugerido a superioridade do homem, visto que seria ele o causador de tamanho prazer à mulher, o cegou implacavelmente, mas Zeus, compadecido da situação em que seu convidado ficara, lhe concedeu como compensação o dom de conhecer o futuro, além do privilégio de sobreviver a sete gerações humanas.

 

A France Press, em matéria divulgada no dia 20/05/2003, diz que “O diretor francês Bertrand Bonello revisita a mitologia grega e transforma o adivinho de Tebas em um transexual brasileiro na Paris dos dias de hoje, em seu filme "Tirésias", apresentado esta terça-feira em competição no Festival de Cannes (...) O Tirésias de Bonello é um transexual brasileiro que vive da prostituição em Paris. Sua vida toma um rumo trágico quando encontra Terranova, uma esteta que o considera a rosa perfeita e que o seqüestra para ser dona de tão rara beleza. Em seu claustro, privado de hormônios, Tirésias vai se transformando. Perdida a beleza, Terranova o cega e se desfaz dele. Em sua nova vida de cego, Tirésias descobre sua capacidade de prever o futuro e sua presença alarma o padre da paróquia, que estabelece com ele uma relação que oscila entre o aborrecimento e o fascínio. A dualidade do filme é marcada, inclusive, pela decisão de Bonello de colocar atores fazendo dois personagens distintos. O francês Laurent Lucas interpreta Terranova e o padre, e dois atores, um homem e uma mulher, vivem Tirésias e o cura, enquanto dois atores, um homem e uma mulher, interpretam Tirésias. (...) Para explicar por que escolheu que seu personagem transexual fosse brasileiro, Bertrand Bonello explicou que ‘Tirésias precisava ser de um país distante, sem referências’ e que ‘no Brasil há muitos transexuais e uma grande presença religiosa, uma convivência entre o profano e o sagrado’, coisas necessárias à sua narração”.

 

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN
Publicado no Recanto das Letras em 01/03/2008
Código do texto: T882478

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Comentários
01/04/2009 14h56 - Rosângela
Olá Fernando, A sua visão do personagme mítico Tirésias é interessante porque me fez \"abrir os olhos\", eu não via nele nenhuma sexualidade. Depois de ler o seu artigo, ele tem no mínimo \"duas\"! Gosto de mitologia x cinema x psicologia. Agora estou escrevendo sobre Édigo e Antígona em conexão com o filme \"Ensaio\" de Saramago. Quando puder acesse meu blog: www.faroartesepsicologia.blogst.com Abraços, Rosângela

Sobre o autor
FERNANDO KITZINGER DANNEMANN
Patos de Minas/MG - Brasil, 77 anos
1450 textos (2606613 leituras)
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