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1889 – ÚLTIMO BAILE DO IMPÉRIO

 

A necessidade de construção de posto alfandegário próximo ao fundeadouro dos navios mercantes estrangeiros que chegavam à Baía de Guanabara, em frente à atual Praça 15, no centro do Rio de Janeiro, e o entusiasmo do Imperador Pedro II pela beleza e privilegiada situação da ilha, levaram à construção da notável edificação na Ilha Fiscal. O edifício foi concluído em abril de 1889, e no dia de sua inauguração disse o imperador que ele era “como um delicado estojo, digno de uma brilhante jóia”, referindo-se a sua privilegiada localização e a beleza da Baía da Guanabara.  A Ilha Fiscal foi primeiramente denominada Ilha dos Ratos. O nome se referia ao grande número desses roedores que teriam vindo fugidos das cobras da Ilha das Cobras, onde hoje se encontra o complexo do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Havia, numa outra versão, umas pedras cinzentas espalhadas pela ilha que se assemelhavam a ratos, à distância.

 

Hoje a ilha é conhecida pelo evento "O Último Baile do Império", realizado em 9 de novembro de 1889. Sobre essa festa famosa, ela foi uma homenagem prestada à tripulação do encouraçado chileno Almirante Cochrane, e com ela o Império não só reforçava os laços de amizade com o Chile, como tentava reerguer o prestígio da monarquia, bastante abalado pela propaganda republicana. Falou-se muito da música e do magnífico cardápio oferecido aos convidados, que incluiu 800 kg de camarão, 1.300 frangos, 500 perus, 64 faisões, 1.200 latas de aspargos, 20.000 sanduíches, 14.000 sorvetes, 2.900 pratos de doces, 10.000 litros de cerveja, 304 caixas de vinhos, champagne e outras bebidas diversas. Durante seu desenrolar, uma banda instalada a bordo do "Almirante Cochrane", o navio homenageado, tocou valsas e polcas, madrugada adentro. O comportamento dos participantes foi largamente explorado pela imprensa da época, cujo noticiário denunciou curiosidades que ainda atraem historiadores. O luxo e as extravagâncias com que se apresentaram os convidados geraram comentários de todo tipo.

 

Estimou-se que cerca de cinco mil pessoas compareceram ao baile marcado pelo excesso e pela extravagância em todos os detalhes. Um fato irônico, até hoje não confirmado, ocorreu logo após a chegada da família real, às 10 horas da noite: conta-se que D. Pedro II, ao entrar no salão do baile, desequilibrou-se e levou um tombo, mas recompondo-se, exclamou: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu!”. Outro acontecimento curioso ocorreu às 5 horas da manhã, após a saída dos convidados, quando os trabalhos de limpeza revelaram alguns artigos inusitados espalhados pelo chão: além de copos quebrados e garrafas jogadas por todos os cantos, foram recolhidas condecorações perdidas e até peças de roupas íntimas femininas. Esse fato, entretanto, pode ser fictício, uma vez que tal informação foi dada na coluna humorística Foguetes, do periódico carioca "O País", editado no dia 12 de novembro. A república foi proclamada seis dias depois do baile, e o imperador embarcou no mesmo Cais Pharoux de onde partiam os ferry-boats para levar os convidados que se destinavam ao baile. Vale observar que o cais Pharoux, no centro do Rio, hoje é conhecido como Praça Quinze, onde recentemente recuperaram-se as escadarias utilizadas para o embarque para a Ilha.

            Os jornais da época informaram que “O baile estava marcado para as 8h30, mas desde cedo uma multidão se acotovelava em volta do Cais Pharoux, que dá acesso à ilha, e nas ruas próximas, para ver chegarem os convidados. A impressão que se tinha era que boa parte dos 500.000 habitantes com que hoje conta o Rio de Janeiro estava lá. A suntuosidade da festa começava ainda na ponte flutuante montada junto ao cais para o embarque, ornamentada com seis grandes arcos e dois candelabros de gás. Junto a ela, tocava a primeira das seis bandas e orquestras contratadas para animar a festa. Da ponte, os convivas eram levados até a ilha pela barca Primeira. Ainda no cais, o cenário que se erguia das águas da baía era deslumbrante. O Palácio da Ilha Fiscal projetava-se em meio a uma iluminação deslumbrante feita com 700 lâmpadas elétricas. No alto da torre, um holofote produzia um foco de 60 000 velas, mais da metade da força projetada pela iluminação da Torre Eiffel”.

 

“Ao chegar à ilha, os convidados desembarcavam em meio a um bosque. Nas paredes do torreão, um quadro simbolizando a recepção ao navio Almirante Cochrane mostrava ninfas e golfinhos saindo da baía para oferecer ramos de flores aos marinheiros chilenos. Toda a ilha foi ornamentada com bandeiras brasileiras e chilenas, além de 10 000 lanternas venezianas. Seis salões abrigavam as danças. No primeiro deles, as paredes se escondiam sob cachos de flores naturais e palmas. Nos dois maiores, entre tapetes vermelhos e âncoras douradas e prateadas, foram colocados retratos recém-pintados do almirante Cochrane e do almirante Greenfell. Um republicano infiltrado no baile, que dias depois publicou suas impressões na Revista Ilustrada, comenta que a certa altura os salões tornaram-se pequenos para o número de convidados. "Para conseguir o espaço necessário às danças, o senhor Hasselmann, guarda-mor da alfândega, teve de suar, não só o topete, mas também o colarinho, de tal modo que este perdeu toda a compostura e tomou o aspecto de uma simples tripa enrolada no pescoço".

 

“A ceia foi um capítulo à parte na festa. Foram armadas mesas em forma de ferradura, para 250 talheres cada uma. Nas cabeceiras das mesas, dois enormes pavões empalhados estendiam as caudas multicoloridas. Seguiam-se pratos de peixe e de caça colocados alternadamente e, entre eles, havia enormes castelos de açúcar, em cujos torreões foram colocados bombons. À frente de cada prato havia nove copos de feitios diferentes, três brancos e seis coloridos. Por essas mesas, passou um desfile monumental de iguarias que daria para alimentar um exército. Republicano, naturalmente”.

 

Em 2001 o espaço passou por intensos trabalhos de restauração, coordenados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A partir das obras, foi recuperado o esplendor das pinturas decorativas do teto, das paredes e do piso do torreão. Também a parte externa do edifício voltou a exibir sua cor original. De quinta à domingo, roteiros guiados permitem explorar cada canto da construção, uma das preferidas de D. Pedro II. Entre os atrativos, os salões que abrigam exposições temporárias e permanentes que revelam a história da Ilha e da Marinha, a coleção de vitrais e os trabalhos em cantaria - colunas, arcos, florões e símbolos imperiais. Na ilustração acima, a gravura mostra como era a ilha Fiscal na época dos acontecimentos ora relatados.

FERNANDO KITZINGER DANNEMANN
Publicado no Recanto das Letras em 13/05/2008
Código do texto: T988304

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FERNANDO KITZINGER DANNEMANN
Patos de Minas/MG - Brasil, 75 anos, Escritor Amador
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