ANÁLISE DO FILME OBRIGADO POR FUMAR
Logo nos créditos iniciais que apresentam o filme “Obrigado por fumar” é possível perceber o tom irônico e satírico que predominará durante todo o longa-metragem dirigido por Jason Reitman e estrelado por Aaron Eckhart. O nome dos produtores, atores, atrizes, elenco e responsáveis pela produção são apresentados em embalagens e maços de cigarro, colocados em meio a frases como “Blended Mild”, “Premium Blend”, “Smooth and Refreshing” e tantas outras, comuns às marcas famosas e mundialmente conhecidas. Este tom irônico perpetuará por toda a fita, presente inclusive no nome da película ao agradecer as pessoas por estarem fumando.
Baseado no romance homônimo de Chistopher Buckley, o filme é narrado em primeira pessoa pelo protagonista Nick Naylor, vice-presidente da Academia Americana de Estudos sobre Tabaco, empresa criada pelos principais lobistas da indústria de cigarros no governo dos Estados Unidos para dar um embasamento científico a suas defesas em Washington. O fato do próprio Nick narrar o filme atribui ao longa um aspecto mais intimista, o torna pessoal e permite que ele apresente suas impressões sobre o trabalho que exerce e a indústria que defende.
A primeira cena do filme surge como uma paródia aos conhecidos programas de debate americanos, onde um assunto específico é selecionado para discussão e especialistas em diversas áreas de conhecimento relacionadas ao tema são convidados a emitir suas opiniões. No caso do filme, o debate é sobre o problema do cigarro na sociedade, e os convidados do programa são escolhidos de maneira a formar uma oposição a Nick. Participam: a presidente de um grupo anti-tabagismo adolescente, a presidente da associação de pneumologia, o representante de serviços de saúde e humanitários, um adolescente com câncer e o próprio Nick Naylor representando as indústrias de cigarro. Esta situação serve como mote para apresentar o protagonista, sua profissão e os efeitos do cigarro sobre sociedade moderna. Como era de se esperar, Nick é acusado pelos participantes como culpado pelo problema do adolescente com câncer, e em certo momento é vaiado pela platéia do programa. Contudo, através da inversão do foco da acusação, Nick “vira o jogo”, consegue que a platéia aceite suas idéias absurdas e acaba por ser apoiado pelos espectadores.
Diversas avaliações diferentes podem ser feitas a respeito do filme “Obrigado por fumar”. Uma delas, e talvez a mais simplista, seja a tomada do filme como uma crítica à indústria do tabaco, seus representantes, trabalhadores e consumidores. O filme mantém uma atitude cínica e irônica sobre os malefícios da indústria tabagista e se utiliza destes recursos para fazer suas críticas contra um segmento da economia que contribui para a morte de diversas pessoas, prejudica a saúde pública e gasta uma considerável quantidade de dinheiro público em seu combate e prevenção. Nesta perspectiva, o filme demonstra com clareza as contradições que regem esta indústria e os problemas que ela traz para a sociedade. Vemos, por exemplo, a incoerência que há no fato de que apesar de ser uma indústria voltada ao lucro, seus dirigentes prometem – e gastam – fortunas em campanhas publicitárias contra seu próprio produto.
Ainda nesta perspectiva, o filme age de maneira eficiente ao mostrar as mazelas que o cigarro causa, incluindo negociações e acordos políticos feitos para manter as vendas crescentes e as estratégias da indústria para manter clientes e atrair novos consumidores. O filme é eficaz em suas denúncias, se utilizando de sutileza e ironia para fazê-lo, ora agindo de maneira explícita e incisiva, ora de maneira sutil e quase imperceptível.
Uma análise um pouco mais profunda remete à avaliação do filme em seu papel social contra problemas igualitários e não apenas à indústria tabagista. Ele relata esquemas imorais e acordos antiéticos, como, por exemplo, a idéia de subornar Hollywood para incluir cenas com cigarros em seus filmes. Este aspecto demonstra como funcionam diversos segmentos da sociedade atual, onde dinheiro e poder são utilizados para obtenção de lucro e vantagens. Ainda neste âmbito, o filme faz acusação também a outras indústrias que podem ser consideradas nocivas, entre elas, a indústria armamentista e do álcool. Este ponto de vista levanta ainda discussões maiores como a legalização de outras drogas que atualmente são consideradas ilícitas.
Outra análise possível sobre o filme é sobre a questão da ética e dos valores pessoais. No filme, temos um protagonista que defende uma indústria que é notoriamente nociva às pessoas e que se utiliza de substâncias viciosas para manter seus clientes. Neste aspecto, podemos considerar o personagem de Nick Taylor como uma pessoa de caráter duvidoso, pois apesar de ter consciência dos malefícios da indústria que defende e da profissão que desempenha, em nenhum momento hesita em agir daquela maneira e continua a trabalhar por questões meramente financeiras.
A fita é cheia de exemplos de desvios de conduta e caracteres negativos. Há o produtor corrupto, o ex-garoto propaganda da Malboro que está com câncer mas aceita dinheiro em troca de seu silêncio, o chefe inescrupuloso e o próprio Nick com suas atitudes questionáveis. Outra personagem de destaque que também apresenta problemas de personalidade volátil é a repórter Heather Halloway que acaba por se envolver sexualmente com Nick apenas para conseguir a resolução de uma importante matéria de seu jornal. Heather se utiliza do sexo com arma para se aproximar de Nick e conseguir as informações que precisa. Esta análise demonstra alguns dos valores negativos que são cultivados no século XXI, onde o sexo é utilizado como arma, e o dinheiro é mais importante que qualquer valor ético, moral ou espiritual.
Estas demonstrações de falta de ética, senso e o poder que os personagens possuem servem para discutir questões morais que atualmente são ignoradas ou manipuladas pelas pessoas. Uma cena de extrema importância para o filme demonstra, mesmo que de maneira politicamente incorreta – o filme se utiliza disso para fazer comédia e junto com ela, suas denúncias – um diálogo em que Nick conversa com seu filho e afirma que podemos ser moralmente flexíveis para cumprir as atribuições de nosso trabalho.
Por fim, há ainda uma outra análise interessante a ser feita sobre o longa-metragem que apresenta em níveis diferentes a força do discurso. “Se argumentar corretamente, nunca estará errado”, afirma Nick a seu filho Joey em certo momento e durante o longa, várias seqüências tencionam a demonstrar que esta premissa está correta. Joey acaba por aprender a força do discurso e se utiliza dela para convencer sua mãe sobre uma viagem com o pai que ela vetara anteriormente. Surpreso com a mudança de atitude de sua ex-mulher, Nick pergunta a seu filho sobre o que fizera para convencê-la. “Foi uma argumentação, não uma negociação”, responde Joey, repetindo as palavras que aprendera com o próprio pai ao redigir um trabalho escolar.
Neste ponto, o filme serve como ótimo exemplo sobre técnicas de argumentação e sobre como influenciar pessoas com diferentes tipos de discurso. Nick é o exemplo maior sobre como fazê-lo, entretanto, há outros destaques, como o produtor de Hollywood que transforma a negociação de um suborno em algo mais sutil através da criação de uma imagem poética e sensual, amenizando uma situação que normalmente pareceria antiética e imoral.
Analisado por esta perspectiva, o filme demonstra como o discurso pode ser utilizado para influenciar as pessoas e como isso é feito em propagandas, filmes e por profissionais de diversas áreas em função de suas atividades, sejam elas corretas ou não. O próprio filme em sua essência serve como exemplo sobre a força do discurso em uma auto-referência, pois apresenta seus questionamentos polêmicos de maneira sutil e irônica, tornando-os de aceitação mais fácil ao transformá-los em uma comédia que se apega ao humor negro para transmitir sua mensagem.
Em última instância, podemos dizer que o filme “Obrigado por fumar” é um filme altamente crítico e inteligente, que se utiliza de diálogos ágeis e tom irônico para debater questões relevantes da sociedade moderna. Várias críticas e opiniões estão distribuídas ao longo da fita: o cientista responsável pelo Instituto do Tabaco em que Nick trabalha é alemão, e supostamente, nazista, o que explica seu comportamento; o grupo de advogados que defende a empresa parecem saídos de um romance do John Grisham de acordo com o protagonista, todos comprados ao custo de carros luxuosos e imóveis palacianos; o chefe de Nick lutou no Vietnã e as pessoas que conheciam seu verdadeiro nome já estão todas mortas; o grupo dos mercadores da morte, formado pelos representantes das indústrias do cigarro, álcool e armas, que discutem abertamente, por exemplo, sobre qual dos segmentos mata mais pessoas por ano. Todos esses detalhes e questionamentos - alguns passarão despercebidos por olhos menos atentos devido à agilidade da fita - servem para colocar em pauta a discussão de assuntos complexos da sociedade moderna, que ultrapassam a esfera do segmento tabagista. Um detalhe interessante: apesar da temática envolvendo cigarros e a indústria do Tabaco, o filme discute tudo isso sem que haja uma cena sequer com personagens fumando.
Anderson Henrique
Publicado no Recanto das Letras em 17/06/2008
Código do texto: T1037757
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