Fim dos Tempos - The Happening (2008)
Direção: M. Night Shyamalan (Sexto Sentido, Corpo Fechado, A Vila, Sinais, Dama D'Agua)
Se M. Night Shyamalan tem algo que o diferencie do resto do cinema sem sal que tem sido feito ultimamente é justamente sua singularidade e capacidade única de se diferenciar da massa. A real é que nem Sexto Sentido eu gostei tanto assim, se for para escolher um filme que tenha me chamado a atenção, nadando contra a maré, eu diria Sinais. Eu gosto desse embate, dessa dualidade recorrente que Shyamalan busca colocando a fé a ciência quase que de mãos dadas.
Nesse novo filme, temos um evento inesperado, as pessoas começa a se matar sem a menor razão óbvia. Massas de pessoas que faziam suas atividades rotineiras simplesmente começa a se matar. Um conto apocalíptico que de certa forma segue muito a linha já explorada por Stephen King e ganha quando explorador numa ótica até então nova. O filme por si só é uma homenagem ao cinema mais lado B, Referências ao cinema por muito negligenciado e que teve só seu mérito enaltecido pelo Tarantino a alguns anos. Como fio condutor acompanhamos a fuga desesperada de um casal e sua sobrinha para longe dos focos desse evento macabro. Fica claro desde o começo que a intenção é que o medo domine toda a fuga e qualquer esperança de sobrevivência.
O filme tem momentos perturbadores e garante bons sustos e um clima de apreensão fora de série. Acho que o grande mérito foi a construção de um roteiro pra lá de afiado. Tudo gira em torno da sobrevivência, o que acaba por gerar um pequeno grupo de pessoas que tem o mesmo desejo desesperado pela vida. Então acompanhamos o caos, depois a organização e torcemos para que as pessoas se juntem e num espírito de comunidade se ajudem a superar o evento. Quando finalmente temos essa unidade de grupo formada e em busca da possível salvação aprendemos que a única forma real de sobreviver é o amargo e duro isolamento. Isso nós proporciona cenas lindas, que culminam em uma das mais belas cenas do cinema americano: os protagonistas impulsionados pelo instinto de sobrevivência acabam separados por uma parede e sem poder se tocar ou mesmo compartilhar esse momento de grande medo, travam um diálogo ótimo por via de um cano que interliga as paredes. Fantástico.
O filme seria fácil um dos melhores do ano se acabasse por aí, um desfecho burocrático e extremamente tosco leva os últimos quinze minutos para o buraco. Se desconsiderarmos o final temos um filme excelente. Porém, finais ruins não são novidades e nem deveriam ser tão levados a sério quando o resto do filme mantém uma média alta, lembrem-se de Meninos e Lobos... enfim, Shyamalan parece ter achado os trilhos novamente.
Blog: http://perdidotraducao.blogspot.com
JMadrid
Publicado no Recanto das Letras em 19/06/2008
Código do texto: T1041185
 | Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original (Citar autoria de João Madrid e o site http://perdidotraducao.blogspot.com) e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. |