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Inocência esquecida

           Quem dera todos os adultos pudessem se (re)avaliar periodicamente sob a ótica das crianças que foram um dia. Os que usam esta “técnica” de auto-análise encontram motivos suficientes para realmente encarar a infância como uma das épocas mais ricas em termos de aprendizagens essenciais para toda a vida.
            Esta é a temática do filme “Duas Vidas”, de 2000, estrelado por Bruce Willis. Ele conta a história de Rusty, um homem que, aos 40 anos, é bem sucedido profissional e financeiramente; capaz de ser bajulado pelos clientes por seu talento peculiar; cobiçado pelas mulheres; e totalmente intolerante com os funcionários e consigo mesmo.
            Com o cotidiano completamente atolado em seu trabalho de salvar a imagem de empresários e políticos corruptos, ele vê inexplicavelmente surgir em sua vida uma pessoa que conhece bem, mas a quem fez questão de enterrar no passado. Com o peso de quem encontra na comida uma eterna festa e com a ingenuidade de qualquer criança de 7 anos, eis que surge o pequeno Rusty para dar de cara com seu eu do futuro. Neste encontro, a personagem de Willis é levada não apenas a encarar tudo que sempre quis esquecer, mas a se lembrar de quem é e do que isto significa.
             Em meio a essa trama surgem as situações mais inusitadas, que vão dando ao filme um desenrolar leve e, muitas vezes, cômico. Quem fica à espera de uma explicação plausível para a forma como é feito o salto no tempo termina deixando de lado este aspecto da ficção para se envolver no principal da história.
             Em “Duas Vidas”, Rusty é um adulto arrogante como muitos que encontramos por aí. Quando percebe que toda a sua racionalidade está começando a ruir diante de um fato sem qualquer explicação, ele procura a sua analista com o mesmo desdém de sempre, em busca apenas de algum remédio concreto que possa fazer sumir uma aparição tão absurda. Mas não adianta; lá está ele, gordinho, bonachão e de uma meiguice contagiante – um menino que se esforça para reconhecer a si mesmo 33 anos mais tarde. São duas mesmas vidas completamente antagônicas, incapazes de se misturar.
              Às vezes achamos que o universo adulto é por si só um antídoto para todas as inseguranças e fraquezas que possamos um dia ter sentido ou vivenciado na infância. No entanto, quando nos deparamos com estes mesmos sentimentos, com intensidade redobrada, percebemos o quanto necessitamos voltar no tempo para entender as causas e tentar resolvê-las tardiamente. Este é um dos princípios das terapias baseadas na psicanálise ou em outras vertentes menos convencionais.
              É até bem possível que durante o filme as pessoas se permitam trazer de volta as crianças que foram, com suas alegrias e medos, com seus olhos puros para enxergar os mundos de fora e de dentro. A verdade é que nestas lembranças há sempre alguém um tanto diferente do que somos hoje, mas com um quê familiar, capaz de apontar alguns caminhos de sol que ficaram perdidos lá atrás e que podem até ser retomados.
Roberto Darte
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2009
Código do texto: T1895493
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Comentários
30/10/2009 09h22 - anabailune
Vi o filme, e adorei! Confesso que no início pensei tratar-se de mais um daqueles filmes sobre troca de personalidade, tão batidos...mas, neste caso, é um confronto com a própria personalidade. Uma segunda chance, que, acredito, muitos de nós gostaríamos de ter.

Sobre o autor
Roberto Darte
Viçosa/MG - Brasil, 40 anos
191 textos (18488 leituras)
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