Texto

BAZZO, E.F.    A lógica dos devassos: no circo da pedofilia e da crueldade.   Brasília:LGE, 2007.
 
 
“Se você ainda vive no mundo esquizóide da fantasia e da idealização... pense bem antes de meter-se pela vereda deste livro”, alerta-nos seu autor. E eu também o alerto, pois poucos livros conseguirão trazer-nos a realidade de forma tão escancarada. Chega a ser chocante, mas na verdade, é totalmente elucidativo. Então, de qualquer forma, não o evite. Leia-o uma, duas, quantas vezes forem necessárias, até compreender que o entendimento das questões da crueldade no mundo é, além de muito complexo, mais necessário do que supomos. 

Para começar, Ezio Bazzo, de forma completamente ácida, reduz a pó nossas ilusões sobre a espécie humana. Segundo ele, a única espécie do planeta, ao lado dos porcos e dos ratos, a massacrar e destruir seus próprios filhotes.


Não é um ensaio sobre a cegueira, mas é um ensaio sobre a crueldade voltada principalmente para a infância e os animais, seres indefesos, e esta crueldade, sem dúvida, é a pior forma de cegueira.


Desprezando o academicismo clássico, como de costume, Bazzo, realiza um dos seus melhores discursos pós-modernos. Sempre pensando alto e falando consigo mesmo, faz conjecturas sobre a vida e sobre o ser humano, faz  literatura e descrição de viagem ao mesmo tempo, enquanto despeja sobre nós as mazelas da crueldade existente no mundo.


Certamente o pensamento linear, feito sob medida, normalmente pobre nas nuances e detalhes, conservador e dogmático, não tem como apreciar esta obra magnífica, um livro sério e verdadeiro, capaz de estilhaçar o circo armado desde a antiguidade clássica para  explorar e abusar da inocência das crianças e dos animais e nos mostrar os cortes provocados por cada um desses pedaços, como alguém acostumado a percebê-los.

Num desses recortes ele nos diz: “apesar dos tempestuosos e românticos esforços para humanizar e idealizar a carne, temos que admitir: há de tudo nas fileiras dessa horda autista e inquieta que vem se lambendo o traseiro há décadas, desde o momento que acorda até a hora que claudica e desfalece com os maxilares trêmulos e o ventre entumescido.”  Parece querer nos dizer que nascemos nus e morremos nus e ainda assim,  não sabemos o que isto significa.

Em toda parte, em todo o mundo, desde que a sociedade se organizou de alguma forma, encontram-se espaços para  o exercício da crueldade sob as mais variadas formas. Ele não economiza exemplos destas práticas pela história afora. Estes confinamentos de centenas de crianças/prostitutas vindas de locais carentes, estão aí até hoje, sem incomodar a sociedade  dita organizada.

Removendo a tenda do espetáculo, Bazzo nos deixa ver a face oculta da dor proveniente de um prazer que é distorção, e muitas vezes, aberração; uma vergonha que se disfarça, se escamoteia e não tem como ser resolvida sem tratamento adequado; a face oculta da própria morte que abraçando vidas inocentes, usa a grande mortalha chamada culpa/vingança como se nada de errado estivesse acontecendo.
 
-Você sabe quanto custa uma criança de programa?
 
Os abutres sabem. Os abutres que certamente também foram abusados e que agora, como explica Bazzo, “são movidos por um ressentimento inconsciente e precisam vingar-se realizando suas taras ( no simbólico e no real), sobre outras crianças”. O abusador, segundo explica o autor, “não sente apenas um tesão ambíguo sobre a criança “desejada”, mas principalmente, raiva e desprezo por ela, o mesmo que sente por si mesmo”.
 
-Você sabe o que sente a criança vítima deste tipo de violência?
 
A maioria não sabe. Segundo o autor, “ irônica e paradoxalmente, o pequeno abusado intimidado pelo patético, confuso e complicado mundo dos adultos, costuma sentir-se responsável e culpado pelo abuso do qual foi objeto. O resultado disso, quase sempre é uma histeria. Mas depende de vários fatores. Em algumas crianças o malefício e o trauma são imediatos. Outras elaboraram melhor e não vão ficar doentes por isto. Na grande maioria os resultados desta experiência só serão conhecidos bem mais tarde, na forma de fobias, homofobias, impotência, fantasia de estupro, autopedofilia, frigidez, ódio contra o gozo sexual, confusão entre prazer e culpa, luxúria e arrependimento, euforia e depressão, excesso de luz e um inferno de trevas, sedução e nojo pelo objeto conquistado”. Citando Ferenzi, Bazzo acrescenta: “na verdade, foi destruída sua confiança no testemunho de seus próprios sentidos”. Já imaginaram o que significa isto para um ser humano?
 
Neste seu percurso, Bazzo passeia por Sevilha, Granada, Tanger, Marrocos, Katmandu e Paris. Visita o Museu do Prado para verificar as pinturas de Rafael, Tiziano e Bosch. Vai ver de perto os “nus infantis” investigando possíveis relações dessas figuras com situações de abuso sexual.   Vai também a Sevilha para assistir o massacre de um touro torcendo por sua vitória sobre os homens e nos descreve este rio de sangue oficial.
 
Neste livro, construído à margem, e de perfil sui-generis como o são todos os livros deste escritor, é preciso estar preparado para entender seu recado: “ do oriente ao ocidente, de Pequim à Buenos Aires, das comunidades sanguinárias e canibais às ditas civilizadas dos últimos tempos, o que se tem visto é que as nações, prenhes de crueldade, se fizeram uma atrás das outras apenas com armas, demagogias, plágios, sangue e dinheiro.” Falta alguma coisa ao nosso ingrediente humano, concluo. – O que seria?    
 
 
                                                                       mais de mim em: http://veusdemaya.com
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Maria Helena Sleutjes
Publicado no Recanto das Letras em 27/10/2009
Código do texto: T1890756

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Comentários
30/10/2009 00h29 - Mario Roberto Guimarães
Belíssimo trabalho, Maria Helena, parabéns. Estive ausente desde ontem, mas aqui estou para colocar a leitura em dia. Beijos, Mario.

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Sobre a autora
Maria Helena Sleutjes
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