O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO
Nesta conferencia, realizada em outubro de 1945, Jean-Paul Sartre se propõe a defender o existencialismo, corrente filosófica a que se filia, da série de críticas que a ela são dirigidas especialmente pelos marxistas e pelos cristãos. Os primeiros o acusam de se voltar para a pura subjetividade, e assim permanecer no imobilismo da contemplação, ao invés de levar o indivíduo para a ação, tratando-se, portanto, de uma filosofia burguesa, porque a contemplação é um luxo. Já os segundos o acusam de tirar toda a beleza da existência, ao enfatizar o lado sórdido do ser humano.
Importante lembrar, aliás, que o existencialismo nasceu pelas mãos de Kierkegaard, um teólogo cristão do século XIX, que enfatizava exatamente a subjetividade para demonstrar que fora da fé não haveria salvação para o homem. Entretanto, segundo Sartre, a filosofia moderna não crê em Deus, e por isso o existencialismo moderno como o propôs Heidegger, tem que ser necessariamente ateu. Este afastamento da divindade, entretanto, não é sem conseqüências; muito pelo contrário.
Kierkegaard dizia que a fuga do desespero humano só poderia se dar pela fé. Sartre, entretanto, nega a fé cristã, e ainda assim afirma que sua filosofia não leva ao imobillismo. Esta acusação parte da má-fé de seus adversários pois, no fundo, o que estes censuram não é tanto seu pessimismo, mas justamente seu obstinado otimismo. E este se dá porque nesta filosofia cada homem é o próprio responsável pelo seu destino. Nele a existência precede a essência.
Isto quer dizer que todas as outras coisas da natureza nascem com uma finalidade pré-determinada, exceto o ser humano. Antes de se construir um lápis, por exemplo, o destino deste objeto, que é escrever, já está pré-determinado na mente do artífice. No caso do ser humano é diferente. Ele aparece no mundo como um nada, sem finalidade nenhuma, pois não existe um supremo artífice. E então, ele, aí lançado no desaparo, condenado a ser livre, tem que escolher qual será seu destino.
Não existe nada que possa ajudá-lo, nada. Nem moral, nem religião e nem Deus. Até porque ele é que deve escolher o valor daquilo que se apresenta como solução. Uma manifestação sobrenatural, por exemplo. É ele quem deve escolher se é um aviso de Deus ou apenas uma alucinação. Esta escolha é feita com angústia, pois ele sabe que determina toda a existência com base em sua escolha, mas não há outra saída.
Obviamente o homem pode negar haver angústia na sua escolha. Isto é devido à má-fé. O ser humano pode mentir para si mesmo e para os outros e ocultar o que se passa dentro de sua existência. Porém, ele sabe que está sozinho e sua escolha é feita perante todos os outros homens. Assim, ele escolhe não apenas a si mesmo como todos os outros. Caso opte por escolher a covardia, por exemplo, terá que sustentar esta opção perante todos os outros como seu valor intrínseco.
O otimismo sartreano está exatamente nesta possibilidade de julgamento das escolhas feitas pelo indivíduo. E também de auto-julgamento, pois a má-fé é mentira, e fará o indivíduo sofrer toda vez que tiver que afirmá-la. A única escolha que não é possível é não escolher. Quem não escolhe já escolheu viver a reboque do projeto de outrem. Por isto, o existencialismo ateu, que diz que é o próprio homem que se constrói, é um humanismo.
Se a verdade cartesiana do mundo é o “penso, logo existo”, devo aceitar a liberdade dos outros. É considerando o outro como um ser livre perante mim que ganho minha própria liberdade. Para que eu seja algo preciso que a outra liberdade me diga. Há uma intersubjetividade entre todos os indivíduos, e todos os projetos, por isso, são compreensíveis. Mesmo os mais díspares em termos de distância e época.
Ainda que houvesse a prova viva da existência de Deus, esta necessidade de escolha não seria eliminada. Antes mesmo de conhecer qualquer coisa devo escolher a mim. E esta escolha se dá dentro da intersubjetividade humana. Todo o nosso universo é humano. A hipótese da existência de Deus, portanto, é desnecessária. Até para saber quem é Ele, preciso primeiro saber do outro, o meu igual. Posteriormente Sartre defenderia os valores marxistas em sua segunda grande obra: Crítica da Razão Dialética. Nada mais coerente para um pensador que tanto defendeu o engajamento.
Jimii
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1900403
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