Texto

Fragmento, de Castro Alves

Os elementos do texto permitem visualizar imagens mais do que o próprio sentido delas. A repetição de sons (s, ç), por exemplo, nos três primeiros versos, nos faz quase sentir o vento que açoita as flores. Assim como  a repetição das vogais 'o' e 'u' dão ao poema uma atmosfera triste, mais do que as próprias palavras 'triste', 'açoite', 'cruento'.

O eu lírico compara-se claramente as flores tristes: "Eu sou como elas". Como as flores, que "só tem o açoite/ do cruento sul", ele vaga sozinho "em caminho de ervaçais e pó" (ervaçais e pó que dão ideia de abandono, de um lugar com o qual ninguém mais se importa).

Porém, as flores tristes (personificadas pela atribuição do sentimento de tristeza, que permite comparação com sentimentos humanos) não têm nem mesmo "um raio que lhes alente a seiva", não tendo outra saída que não seja continuarem sozinhas.

O eu lírico, por sua vez, mostra que tem ainda uma esperança. Mas o destino das flores não é outro que não seja morrer só e, por se comparar a elas, é que sua esperança "bruxuleia a custo" e, por isso, treme de susto de morrer tão só.

Fragmento

Há flores tristes, que nascendo à noite,
                   Só tem o açoite
                   Do cruento sul

E sem que um raio lhes alente a seiva,
                   Rolam na leiva
                   De seu vil Paul.

Eu sou como elas. A vagar sozinho
                   Sigo em caminho
                   De ervaçais e pó.

A luz da esp'rança bruxuleia a custo,
                   Tremo de susto,
                   De morrer tão só.

Natália Almeida
Publicado no Recanto das Letras em 02/11/2009
Código do texto: T1901898

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Comentários
07/11/2009 20h13 - Samuel Sajob
Bons e instrutivo texto da autora, bem como do Henricabilio. Abrç
06/11/2009 08h29 - Henricabilio
Além do que dizes, tecnicamente este poema possui alumas particularidades engenhosas com o primeiro verso que podem escapar ao comum observador... Para lá das rimas de boa qualidade, o primeiro verso de cada estrofe possui dez síbalas e são todos versos sáficos, precisamente para oferecerem outra particularidade: podem ser dividos em dois versos de 4 e 5 sílabas respetivamente (tal como os outros dois que também são de 4 e 5 sílabas respetivamente). Quem diria que quatro estrofes de 3 versos, com sílabas contadas, se podem tornar quatro estrofes de 4 versos, continuando o número das sílabas a estar em sintonia?! A tudo isto ainda somamos o conteúdo e as rimas. Por isso é que os grandes poetas são grandes e os outros se limitam a apreciar - e nem sempre compreendendo todo o engenho do autor. Outro abraçooo luso! Abílio

Sobre a autora
Natália Almeida
Novo Hamburgo/RS - Brasil, 25 anos
29 textos (2864 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 27/11/09 09:03)

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