CARACTERÍSTICAS REALISTAS NO CONTO A CARTOMANTE, DE MACHADO DE ASSIS
O conto machadiano A Cartomante trata do tema do adultério, um dos preferidos do autor, fazendo um painel da sociedade burguesa em ascensão.
A obra relata um triangulo amoroso entre Rita e os dois amigos Camilo e Vilela. Essa situação de adultério confirma a tendência realista de ridicularizar e praticamente destruir o casamento cultuado no Romantismo.
Podemos ver na obra as peças do destino: o personagem Camilo, que logo no início do texto ironiza a amante por sua crença em cartomantes, acaba, num momento de aflição e suspense, recorrendo a tal crendice. De fato, a cartomante, com suas frases de efeito, trouxe-lhe de volta “a paz ao espírito”. Mas, como a ironia não pode faltar, ele foi, embalado pelo “vá, vá, ragazzo innamorato”, descansado e esperançoso, em direção ao seu destino... a morte.
Dentre as características que podem enquadrar o conto na escola realista, está a descrição detalhada e fiel dos ambientes em que ocorrem as ações. Não a descrição fantasiosa e exaltada do Romantismo, mas uma descrição que leva o leitor a se imaginar diante de uma fotografia, como ilustra o fragmento:
"Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava que destruía o prestígio."
Vemos no trecho que relata o início do romance proibido entre Camilo e Rita a construção da imagem da mulher como serpente, que envenena o ‘pobre rapaz’, que “quis sinceramente fugir, mas já não pôde”. Essa caracterização feminina é comum ao Realismo e se opõe à mulher pura e quase que perfeita, fantasiada por grande parte dos romances românticos.
O Realismo tem forte afinidade com a ciência, que por sua vez baseia-se na experimentação, observação dos fatos. Sendo assim, é compreensível o papel que as crendices assumem no conto. A princípio as crendices são nomeadas pelo narrador como “vegetação parasita”, que se gruda no tronco da religião. O personagem Camilo assumia total descrença, e até ria de Rita por acreditar em tais ‘ilusões’. Já no final do conto, a caminho da casa de Vilela, respondendo ao chamado misterioso do amigo, um acidente bloqueia a via e, por ‘ironia do destino’, põe o autor defronte à casa da cartomante. A casa e a situação despertam-lhe antigas crenças, deixadas de lado após sua adolescência. Acabando por consultar a “sibila”, Camilo acredita no que ela diz e começa a imaginar seu futuro cheio de felicidade, já que, segundo a vidente, tudo daria certo e os seus medos eram infundados. Porém, o inesperado desfecho desmente aquela fé “nova e vivaz” com o triste fim dos amantes.
Diogo Xavier
Publicado no Recanto das Letras em 11/05/2008
Código do texto: T984988
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